A ética psicanalítica e a educação infantil

A ética psicanalítica e a educação infantil

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Tenho dois filhos em idade escolar.  Desde muito cedo foram para a escola. Foram muito estimulados, lá e em casa.  Mas o ponto que acho mais importante na educação deles foi a liberdade de criação que  sempre incentivamos em casa. Buscamos uma escola que corroborasse nossa proposta de educação.  Meu marido sempre compartilhou comigo a ideia que devemos educar e deixar para a escola só a escolaridade. 

Essa visão de educar escutando a subjetividade da criança possibilitou que eu levasse para a escola e para o consultório  uma visão de mundo particular. Até por que essa visão foi amadurecendo no meu  processo analítico junto com a experiência de maternidade.

Acho que as práticas educativas proporcionam um precioso caminho para educar e produzir a subjetividade. Em contraposição a essa situação, é possível identificar uma outra posição ética, que analisa as condições simbólicas do sujeito na realização de sua prática e aproxima a educação da psicanálise.

 A psicanálise, a princípio não poderia ser utilizada pela educação. Ela não propõe novos métodos, novo conteúdo ou novo saber, tendo em vista que os fins buscados por esta não se coadunam com os da ética psicanalítica. Entretanto, o campo da educação proporciona as condições para um olhar da psicanálise pautado no sujeito.

Ao subverter a relação entre o  sujeito e o objeto, a psicanálise compreende o fenômeno educativo como uma ruptura na tentativa ilusória de educar na reprodução do mesmo e aponta no sujeito as formações do inconsciente como as injunções que se encontram no desgoverno de suas ações.

Mas o que quero dizer quando afirmo que a prática educativa é ilusória ,se esta possui eficácia na constituição do sujeito? A educação, seguindo pela ética psicanalítica, não pode fundar na criança o desejo de aprender: ou este aparece por conta própria e a criança vai atrás do conhecimento, objeto de satisfação de seu desejo, ou o mesmo não comparece, e não há o que ensinar a quem não constitui um desejo de aprender. Pode-se dizer que, para a psicanálise, o desejo de aprender da criança só poderá ser satisfeito com os objetos que esta escolher para satisfazê-lo, sendo esta escolha inconsciente. Logo, é necessário permitir liberdade à criança de ir atrás do conhecimento que satisfaça seu desejo, pois qualquer outro conhecimento, que não vá ao encontro desse desejo, não será jamais internalizado.

A sujeição da criança ao Ideal do professor jamais permitiria à criança encontrar seu próprio desejo que cedeu espaço ao desejo do educador. Não sendo uma necessidade biológica, mas sim um desejo subjetivo, o aprendizado estaria irremediavelmente ligado à fantasia, necessitando desta para se satisfazer. Conhecimentos impostos arbitrariamente iriam a favor do recalque na criança, se apresentariam como objetos concretos, indiferentes ao desejo daquela, sendo jamais reconhecidos pela sua fantasia, portanto, seriam rejeitados tão logo a criança se afaste do Ideal de seu mestre.

Porém, se ao contrário disto, a educação e a psicanálise, ao se aproximarem  permite à criança a possibilidade de perseguir seu desejo, independente do Ideal de seu professor. O conhecimento ao ser internalizado passa a dizer respeito a ela e o mantém como uma parte de si.

O que a psicanálise tenta elucidar ao se aproximar  sua ética da educação é o mecanismo pelo qual se dá a possibilidade de aprender por meio da educação. É nesse sentido que ela mostra como a tarefa de educar é impossível sem o desejo de aprender, o qual é decorrente da sublimação, mecanismo inconsciente e, portanto, não submisso ao recalque educacional.

Por isso acredito que  a educação permeada pela ética da psicanálise possibilita que criança possa ter autonomia quanto ao desejo de aprender. E uma vez que este apareça, deve lhe ser permitida a autonomia para que busque satisfazer este desejo que a constitui.

 

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