E como vai o casamento?

E como vai o casamento?

 

Estou às voltas com o tema do casamento.O meu e o do outro.

No mês que faço 13 anos de casada e 16 de tempo juntos, meu consultório nunca esteve tão cheio de pessoas questionando seu próprio relacionamento amoroso. Nunca falei tanto em análise, nem meus amigos discutiram tão claramente  o tema comigo. Como entender esse ponto tão importante de nossas vidas? Sem a psicanálise não dá.

Freud apontava no início do século a diferença entre homens e mulheres. Ele se perguntava: “O que quer uma mulher?”. Lacan não responde a pergunta freudiana, mas provoca: ” A mulher não existe” e “não existe relação sexual” . Um amigo provoca: ” Nada que é bom existe para Lacan”. Justo, justíssimo.

A mulher não existe quer dizer que falta à civilização, à cultura, um nome apropriado à satisfação feminina, à essência da mulher. Quando se tenta classifica -la é um desastre, acaba-se por degrada -la, mudar de grau. É diferente do homem que, este sim, encontra conforto nos braços da cultura e aí dormiria em berço esplêndido se não fosse a mulher acorda -lo de seu sono narcísico e homossexual da civilização, de tempos em tempos.

O homem fica feliz quando elogiado. Ele se envaidece quando comparado com alguém admirável. Já nós mulheres questionamos o coletivo e a ordem unida. O elogio a uma mulher tem de ser específico. Jamais um homem deve dizer, por exemplo: “Você é sensual como Shakira”, pois poderá ouvir: “O quê? Quer dizer que você acha Shakira sensual?”. KKK. Somos ótimas e dizemos que somos péssimas. Mas não queremos que ninguém diga que somos péssimas, não gostamos de ser comparadas, aliás os homens nunca sabem o que nos dizer por que nunca sabem se receberemos como elogio ou como critica. Então se calam.

No ideal de algumas mulheres que venho escutando, o casamento dos sonhos seria um marido que discutisse a relação, que conversasse antes e depois do sexo, que lhe levasse para jantares fantásticos nos melhores restaurantes da cidade, lhe surpreendesse com flores e chocolates, e lhe dissesse que a ama pelo menos três vezes ao dia. Para alguns homens em análise é diferente, fantasiam uma mulher que esteja sempre disposta a transar, nunca reclame de nada, e se satisfaça facilmente.

Esses homens e mulheres, na casa dos 40 anos, que vêm fazer análise chegam em uma situação de crise no casamento. Medo, insegurança, culpa, medo de perder os filhos, a segurança, a estabilidade. Tudo se traduzindo na queixa: ” sinto uma angústia”.

Casamento em pedaços. Enquanto algumas mulheres chegam em busca de um apoio nas fantasias suas fantasias infantis de Cinderela à espera do príncipe, alguns homens vêm à procura de um apoio para seu profundo medo de estar sozinho no mundo.

Cada caso é um caso, alguns concluem que querem se separar mesmo. E encontram na vida de solteiros uma chance de construir o que não conseguiram no casamento. Outros decidem tentar.

Não há regras quando tratamos com sujeitos desejantes. Aliás há sim, uma única regra: o analista deve escutar o sujeito em sua singularidade e o sujeito, na medida do que for dando conta, não ceder do desejo.

É importante entender que não existe o príncipe encantado. Nem a mulher dos sonhos. Quando descobrimos que abrir mão da fantasia não significa ceder do desejo, pelo contrário, podemos frear nossos medos e fantasias para que não transborde para a relação e, assim, permitir que seja possível ou desfrutar de um casamento possível ou assumir uma separação sem mágoas, sem culpar ao outro por nossas escolhas.

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