Meu direito é o avesso

Meu direito é o avesso

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Cresci na década de 70. O governo era militar, mas na minha casa o regime era democrático.

Minha mãe sempre foi firme, apesar de tradicional, sempre soube dialogar e respeitar. Meu pai era mais liberal, mas era quem falava mais duro e fazia pensar sobre nossas escolhas.

A medida que fui me conhecendo, descobrindo meus valores, tudo ficou mais difícil. Convencê-los que eu pensava diferente em alguns assuntos, que não queria me encaixar em alguns sistemas levou tempo, mas fui bem sucedida. Na verdade, descobri com a análise que muito dos rótulos e pré-conceitos que atribuía a eles eram reflexos das minhas dificuldades e dúvidas.

Quando percebi que na verdade, não apenas não me conhecia, mas também tinha dificuldades de me respeitar, tudo ficou mais fácil. Passei a me questionar, me investigar e analisar. Deixei de achar que meus pais queriam me obrigar a algo, passei a enxergar minha vida como responsabilidade minha. Encarei o desafio de olhar para dentro, procurar as raízes das minhas repetições, dos meus medos e das minhas escolhas.

O tempo passou e agora, na casa dos “enta” me vejo tranquila com meu percurso. Muito para caminhar. Muito para descobrir. Mas me sentindo mais livre. Livre dos meus preconceitos, de alguns medos e inseguranças. Ontem,  um amigo, ex aluno e cantor de boleros, me falou que havia falado de mim para outras pessoas, da minha aproximação nos últimos meses. Fiquei pensando nisso. Ele tem razão. Aproximei-me mais das pessoas interessantes. Não apenas desse grupo, mas de todas as pessoas que cruzaram meu caminho nos últimos tempos e que encontrei afinidades. Tenho me visto como a lagarta que vira uma borboleta. Tenho despido minha alma e me escancarado simbolicamente.

Olho em torno e vejo, de um lado, um mundo de pessoas interessantes, que entendem que ser livre é deixar o outro ser também. Que liberdade não é sinônimo de libertinagem. Mas de subjetividade e de criação. Do outro lado, vejo a época das trevas, com pessoas reacionárias, cujas ideias de proibições circulam por uma interpretação rasteira do que aquilo representa, na base da impressão, da intuição, da pequenez dos interesses preconceituosos e doentios. Já escolhi o lado que quero ficar. Meu direito é o avesso.

Nessa altura do campeonato não dá mais para me cercar de pessoas limitadas e intolerantes.  Por isso, foram bloqueadas. Acredito que todos nós podemos nos superar, mas não dá para mim nesse momento da vida. Não estou conseguindo  ficar perto de pessoas que escolheram viver na mediania, que não querem se tornar melhores e não assumem sua própria história. Pessoas assim, se incomodam com os outros e veem no controle da vida alheia um modo de esconder suas limitações.

3 thoughts on “Meu direito é o avesso

  1. Nossa, como me identifiquei! Outro dia estava justamente pensando isso, a liberdade que o os “enta” nos proporciona. Muito bom o seu texto, tocou fundo. Bjos.

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