Juntos, porém separados

Juntos, porém separados

liberdade

Tenho falado muito de liberdade e isso tem dado pano para manga. Mas, há um mal entendido. Liberdade não é libertinagem. Pelo menos não é essa liberdade que anseio. E se alguém quer a libertinagem, fique a vontade. Não me atinge a escolha do outro.

Aos 15 anos meu pai me emancipou. Não porque eu fosse terrível e ele quisesse deixar de se responsabilizar. Foi uma medida comercial. Negócios à parte, eu sempre disse aonde ia e com quem ia. Até hoje, casada e com filhos, costumo avisar. Não custa nada.

Fato é que nunca chamei meus pais de senhor e senhora. Eles nunca cobraram e o “você” nunca foi encarado como desrespeito. A “bênção” eu tomava com gosto dos meus avós. Dos tios era uma obrigação e era cumprida. Depois de adulta entendi por que eles precisavam da “bênção” para se sentirem respeitados. Mas isso é outra história.

A liberdade foi sendo conquistada aos poucos. Cinema, danceteria (hoje chamada de balada), barzinho com amigas, tudo foi sendo permitido à medida que eles sentiam segurança em minhas atitudes. Na UFMG já não havia como impedir que essa liberdade tomasse corpo. Dos churrascos na Engenharia às noitadas nos forrós da FAFICH, tudo serviu para amadurecer essa ideia de liberdade. Nessa época, ser livre significava ir e vir sem pedir permissão nem ter hora de voltar.

Com o tempo, liberdade passou a ter outra conotação. Ter meu próprio dinheiro, pagar minhas contas e arcar com as consequências de minha imaturidade financeira foram lições importantes. Descobri que liberdade vem acompanhada de responsabilidade. A responsabilidade me levou à culpa por não saber gerir meu dinheiro e ao pedir ajuda de meus pais, perdi minha liberdade. Não por que eles a tirassem, mas por que eu não admitia viver na farra com dinheiro emprestado, que na verdade sempre oi dado.

Eu acreditava que por precisar do dinheiro alheio tinha que agir diferente, ser mais comedida. Várias vezes tive dificuldade, todas elas me recolhi para me refazer. Depois de casada, fiz uma escolha difícil. Ficar em casa com um filho pequeno e outro na barriga. Foi o melhor que fiz por eles. Mas mjuito difícil para mim. Sai do mercado da psicologia clínica e hospitalar. Dependi de um marido que havia escolhido casar com uma mulher “bonita, inteligente e independente”.

Foram anos terríveis. Sentia culpa, ansiedade e tristeza. Mas sabia que precisaria passar por aquilo já que queria ficar com as crianças até o caçula fazer 2 anos. Que vergonha pedir dinheiro para o marido. Que vergonha me comportar como as senhoras da década de 50 e 60 que dependiam de seus esposos, tiravam trocados da feira para fazer a unha.  Dói só de lembrar. Contar me faz chorar ainda hoje. Mas é preciso. Uso o blog como meio de elaboração, mas também para faze-los pensar em suas escolhas.

Os erros sucessivos, todos por essa dependência, trouxeram consequências devastadoras. Devastadora no sentido psicanalítico da coisa. De transformar o que era lindo e possível de crescer, numa doença de angústia, tristeza e agressividade. Gastava todas minhas forças para separar a mãe, da mulher e da psicóloga. A análise foi fundamental.

Quando meu filho caçula fez 2 anos voltei a trabalhar. Como prometi a mim mesma. Difícil voltar ao mercado. Fazer um nome, ter indicações. Mas foi acontecendo a passos lentos.

Eu já não era mais a mesma, meu marido também não. Fomos surpreendidos por nosso inconsciente. Abrimos mão de nosso desejo e foi terrível. Vimos , de nós mesmos e do outro , lados que teria sido melhor não ver. Mas fez parte de nossa vida.

Hoje me sinto mais livre de novo. Livre para desejar. Aprendi a lidar com minha culpa, ponderar minhas atitudes. Ser livre não significa ir e vir sem dar satisfações. Liberdade significa poder escolher e assumir essas escolhas. Ser livre significa entrar numa loja e comprar uma garrafa de vinho pelo sabor e pelo custo beneficio (porque não?) e não pelo preço apenas. Por que para mim essa independência é fundamental. Ser livre significa dizer “vou passar o fim de semana do dia das mães com minha mãe”, não porque não goste mais da família dele, mas porque preciso estar mais perto da minha. Para isso, tirei uma folga na quinta feira e fui ver a minha sogra.

Ter duas casas, acho que pode ser muito bom. Ficamos juntos, porém separados. Juntos porque nos queremos e somos fieis. Separados porque uma casa é mais perto do trabalho dele e a outra é o meu próprio trabalho. Apenas dois dias por semana dormimos em casa separada. Nos fins de semana e e nos outros dias da semana, nos vemos e estamos juntos. Acredito que podemos ser felizes assim. Acredito que liberdade e amor andam juntos. Não são opostos. Pelo contrário é a chance de ele planejar passeios de bike, retomar os encontros com seus amigos, fazer novos, se dedicar  aos ensaios com o acordeon e o violão. E eu atender até mais tarde, escrever mais, dirigir menos e chamar mais amigas para visitar meu consultório-casa.

Liberdade para mim, agora, é viver com tranquilidade na direção de uma mudança constante, do crescimento subjetivo. Quero conhecer lugares e pessoas novas, com novas histórias e novos olhares. Quero cuidar do antigo. Dos queridos amigos, pessoas que têm feito parte dessa história, dos pais que me deram tudo e eu tão pouco. Da irmã que tanto amo e preciso.

Preciso me reinventar e aprimorar todos os dias. Poder fazer isso, sem considerar o olhar preconceituoso e limitado do outro, sem gastar meu tempo pensando o que estão pensando ou falando de mim, isso é liberdade. A liberdade da mulher de quarenta que espera que seu companheiro não apenas compreenda que essa liberdade não o exclui, mas que espera que ele construa a sua própria liberdade.

2 thoughts on “Juntos, porém separados

  1. Ei Deise, tenho gostado muito de ler os seus textos. Repensar as nossas escolhas, buscar o caminho da tranquilidade e se possível da felicidade. Obrigada. Saudades de você. Quem sabe podemos nos encontrar novamente.

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