Liberdade e desejo

Liberdade e desejo

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Tenho falado muito de liberdade. Tenho exposto muito minha vida pessoal e minhas escolhas. Agora é hora de tentar entender o que venho chamando de liberdade. Será que ela existe? Ou é pura fantasia de quem a descreve (no caso, eu)?

Somos constituídos pelo desejo do Outro e isso está marcado em nós. Tendo em vista essa marca constitutiva será possível viver a tal liberdade que reivindico em meus discursos? Será que a liberdade que quem me lê entende é a mesma que falo?

Sabemos que o que falamos não é exatamente o que o outro escuta. E isso só problematiza a questão da liberdade. O que tenho perguntado é: será que existe possibilidade de liberdade em uma sociedade como a nossa? Será que existe liberdade no meio social que cada um de nós escolheu para viver? Até que ponto escolhemos e em qual medida nos deixamos levar à uma situação que nós acabamos por ser escolhidos?

Freud diz que a liberdade não constitui um dom da civilização. Somos livres enquanto desejantes. Muito lindo. Gosto de entender que ao escutar nosso desejo deixamos de “passar” pela vida e nos apropriamos dela. Somos seres desejantes e enquanto vivos o seremos sempre. Ele  indica que o problema da liberdade dar-se-á sobre duas formas: a primeira à favor da civilização e se impõe como revolta a alguma injustiça e objetiva seu aprimoramento. A outra forma refere-se à subjetividade de cada um de nós e se confronta com o desenvolvimento da civilização.

A sociedade, muitas vezes, lança-se contra as nossas formas de realização de desejo. É aí que se dá um conflito. Por um lado estamos nós, os sujeitos desejantes, por outro lado, fomos constituídos com limites, regras e leis. Aqueles que “proíbem” ou questionam nosso desejo aliam-se ao nosso lado contraditório e nos provoca. O incômodo que a civilização tem em relação à nossa subjetividade encontramos dentro de nós, na forma de culpa, angústia e agressividade.

Assim, a liberdade é apartada no nível da sua realização e também na nossa própria constituição subjetiva. Quero dizer que nós mesmos não permitimos nem liberdade, nem ato e nem desejo por que temos que nos responsabilizar por eles. A censura que fazemos do desejo configura-se durante nossa vida como uma autoridade interna que administra o sentimento de culpa. Eis, de novo, o problema da liberdade. Liberdade e desejo se articulam.

Freud ressalta que o preço que os homens pagam por serem seres sociais é a perda de felicidade, o sentimento de culpa, e somando, a supressão da liberdade.

Por um lado, o processo civilizatório nos humaniza e permite a inserção na cultura. Por   outro, nos impõe certa fixidez e limitação da forma de estar no mundo. E isso nos marca para sempre. A partir daí, há algo em nós que nos constitui e direciona. Ou seja, há o que sou e o que estou. A liberdade é limitada por constituição. Há uma alienação determinante do indivíduo e somos nós mesmos quem reduzimos nossa liberdade.

Em síntese, escutamos o desejo no momento que ocupamos uma posição ativa em relação a ele, em detrimento à alienação passiva. Aí somos livres. Mas somos cativos em relação à sociedade e também em relação ao desejo. Não podemos desejar senão em dissonância com nós mesmos. Por isso a liberdade é limitada.

É neste ponto que situo a dimensão da liberdade que tenho escrito e falado. Quando nos posicionamos na vida, na dimensão do ato, o sujeito emerge. Quando tomamos as rédeas de nossa história, falamos e agimos em consonância com o que queremos, somos livres. A liberdade possível é poder sustentar o desejo. E o desejo não se satisfaz. Se realiza. Por isso infinito.

Acredito que a liberdade existe e é possível. Na medida em que entendemos que, apesar de o sujeito ser cativo em relação à história que lhe precede e às suas identificações imaginárias, somos desejantes. E a liberdade acontece quando escutamos nosso desejo e nos reconciliamos com nossa história. Qualquer que seja ela.

A própria teoria psicanalítica se constitui em liberdade, uma vez que Freud avança sustentado por certa relação a seu desejo e pelo que é seu ato.” (Lacan, 1964,p.50).

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