O que querem as meninas?

O que querem as meninas?

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Após mais de duas décadas de enfrentamento da epidemia, a Aids continua sendo um grave problema de saúde pública mundial, com repercussões sociais, políticas, econômicas, culturais e psicológicas que lhe conferem o estatuto de um verdadeiro “fenômeno” da cultura contemporânea ou, nos termos de Carlos Gustavo Motta (2003), de um fantasma no laço social. Um problema de saúde pública ainda em expansão, particularmente em alguns subgrupos populacionais, entre os quais destaca-se a população de mulheres.

 No Brasil (2011), a chamada feminização da epidemia é evidenciada pela variação na proporção entre o número de casos masculinos e femininos que em 1985 era de 25/1 e em 2011 chega a 1,8/1. A transmissão sexual segue sendo a principal via de contágio entre as mulheres maiores de 13 anos (54% do total de casos notificados), destacando-se que aproximadamente 30% dos casos femininos encontram-se na faixa etária de 13 a 20 anos.

No boletim epidemiológico o ministério da saúde informa que os casos de aids em homens e mulheres jovens, de 13 a 19 anos, de 1980 até junho passado correspondem a um total de 12.693. Nessa faixa etária, o número de casos de aids é maior entre as mulheres: oito casos em meninos para cada dez em meninas, enquanto que nas demais faixas etárias o número de casos de aids é maior entre homens do que entre mulheres.

Em relação ao uso da camisinha, a Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas da População Brasileira (PCAP)  mostra que, entre jovens de 15 a 24 anos, as meninas estão mais vulneráveis ao HIV. Em todas as situações, os meninos usam mais preservativo do que elas. Na última relação sexual com parceiro casual, o percentual de uso da camisinha entre as meninas é consideravelmente mais baixo (49,7%) do que entre os meninos (76,8%). Quando o relacionamento se torna fixo, apenas 25,1% delas utilizam a camisinha com regularidade; entre eles, o percentual é de 36,4%.

 Na tentativa de contenção dessa trajetória feminina da Aids no Brasil, muitos esforços e recursos têm sido investidos em programas de informação, orientação e assistência, visando instrumentar a população feminina no reconhecimento das noções de risco e prevenção. No entanto, vários estudos constatam que um nível básico de conhecimento sobre a doença e seus meios de prevenção não resulta efetivamente, entre as mulheres, em uma capacidade de avaliação realista sobre suas possibilidades de risco, muito menos em adoção de cuidados de prevenção.

 A pesquisa discutiu a constituição da subjetividade e a singularidade do desejo na contemporaneidade.  Ao reconhecer o estado de desamparo fundamental que é constituinte do humano e a pulsão como uma força ativa sempre em busca de satisfação, a pesquisa apresenta um sujeito movido pela busca constante de um objeto, que por ser essencialmente um objeto perdido, institui o humano na condição de ser um ser desejante.

 Desta forma, foi possível relacionar a busca amorosa do sujeito, por um lado, com os resíduos de uma dimensão especular e imaginária constitutiva da subjetividade e por outro, com o mal estar na contemporaneidade no caso da exposição feminina à infecção pelo HIV.

 Na análise dos dados verifiquei a prevalência do relacionamento amoroso como ordenador do funcionamento da vida, como um dos principais pilares de sustentação do feminino e como um dos principais fatores contribuindo para a exposição à infecção pelo vírus HIV. 

A pesquisa mostrou a possibilidade da conversação como metodologia de pesquisa em psicanálise. ao propiciar a escuta singular, contribuir para desordenar as crenças nas identificações, desconstruindo os ideais.

 Desta forma a pesquisa apontou que a psicanálise, na própria abordagem da feminilidade, nos oferece ainda mais subsídios para pensar a vulnerabilidade feminina ao HIV/Aids.

 Compreendemos com Freud e Lacan que o que define o humano é ser um ser-de-cultura. É pela entrada em uma ordem simbólica que o antecede e significa que o corpo (pedaço de carne) torna-se corpo humano e o recém-nascido (pedaço de carne vivo) torna-se ser humano. No entanto, a imersão na ordem simbólica e da linguagem impõe uma perda fundamental – uma perda no real do corpo, uma perda em gozo.

Como assinala Lacan, à intrusão do significante corresponde uma extrusão de gozo. Um assujeitamento ao significante que impõe que o desejo esteja em permanente defasagem com o gozo e nos conduz à verdade da não existência da relação sexual. Um princípio de heterogeneidade irredutível que caracteriza o ato sexual como um encontro sempre faltoso e o prazer como uma experiência sempre contingencial e fugaz, que nada tem a ver com duração, mas apenas com instantes.

 No entanto, a resistência em aceitar essa perda conduz os seres falantes, de ambos os sexos, a se instalarem no parecer, no semblante, na demanda de amor.

 A psicanálise tem a dizer que o amor tem por função preencher um vazio: o amor procura realizar o encontro que, pelo lado do gozo, se verifica impossível. Assim, o amor é dar o que não se tem.

 Para Lacan a relação masculino/feminino tem a ver com duas posições diferentes diante da castração e do gozo. Entretanto, como existe apenas um significante para representar o sexual (o falo), a mulher é privada de um significante que defina o ser mulher. Se o sujeito masculino encontra o significante de sua virilidade no mesmo lugar onde encontra o significante de seu gozo sexual e, por isso, pode ter a ilusão de ser todo fálico, a mulher terá que buscar esse significante fora de si. “Como suprir a privação senão buscando-a no corpo do parceiro?”

Para Serge André, o que uma mulher demanda é subjetivar essa parte insubjetivável de si própria que representa o seu corpo. Na busca desesperada de significação para o seu ser e submetida à ordem fálica, a mulher quer ser o falo, ser o objeto que realiza o desejo do Outro, que preenche a falta do Outro, numa eterna demanda de amor. “Não é de admirar que as mulheres questionem sistematicamente o amor, nem que elas o demandem de seu interlocutor. É preciso amá-las e lhes dizer isto, menos por uma exigência narcísica do que por causa dessa defecção subjetiva pela qual elas são marcadas enquanto mulheres. Se querem ser amadas, não é porque esse anseio tenha a ver com uma passividade natural, como acreditava Freud, mas porque querem ser feitas sujeitos lá onde o significante as abandona”

É no ser e no reconhecimento daquele a quem dirige sua demanda de amor, que uma mulher busca encontrar o significante do seu próprio desejo. Para uma mulher, o equívoco em sobrepor no parceiro o objeto de amor e o objeto de desejo faz com que, na posição feminina, o amor oculte o desejo.

 Mas, se amar é dar o que não se tem, o amor experimentado por uma mulher pode conduzi-la a uma angústia devastadora. O que leva Lacan a afirmar que, para uma mulher, o amor por um homem pode ser muito pior que um sintoma, ou, seu pior sintoma!

 Desta forma, o “homem castrado”, o “estropiado” é uma escolha tentadora na medida em que evidencia em seu próprio corpo uma falta (o alcoolismo, a droga, a promiscuidade, o HIV+, a depressão etc.) que a mulher pode farejar e sobre qual vai se alojar na tentativa de dar um sentido a sua própria falta-a-ser. No cenário da epidemia de Aids este movimento fica cada vez mais evidente no fenômeno crescente dos pares discordantes – casais (hetero ou homossexuais) onde um parceiro é HIV+ e o outro soronegativo. O sujeito HIV+ acaba recoberto de um valor fálico que o posiciona (no fantasma do parceiro) no lugar de objeto. Uma escolha amorosa constituída para seguir velando a falta em ambos os integrantes do casal. No entanto, é uma escolha que se converte em armadilha: para o sujeito soronegativo não há lugar para a perda do amor e para o sujeito HIV+, não há saída dessa captura amorosa.

 No campo do enfrentamento da epidemia de HIV/Aids, a psicanálise tem a dizer, portanto, que parte da vulnerabilidade feminina à infecção está relacionada com a própria constituição da feminilidade, para cada mulher. Tem a ver com a forma como ela vive e se coloca nas relações sexuais e afetivas, a partir de ideais socialmente constituídos e, principalmente, a partir da forma como se posiciona em relação ao Outro e em relação ao desejo e a seu modo de gozo.

 É evidente que compreender e abordar a vulnerabilidade das mulheres, não apenas à infecção pelo HIV, mas na área da saúde em geral, é uma tarefa complexa e multifacetada, mas certamente estéril se não pudermos levar em conta essa dimensão da subjetividade feminina, sem que os profissionais de saúde possam ajudar suas pacientes a se fazerem questão sobre o ser mulher.

Assim, talvez possamos contribuir para que essas mulheres, seres falantes do sexo feminino, possam passar do amor desmedido, que rouba os sonhos (ideal e sempre além), para o amor vivido (o amor possível, o amor realizável).

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