Abençoado por Deus e bonito por natureza

Abençoado por Deus e bonito por natureza

Para M.

Era uma vez um homem de quase 30 anos. Nele, o conflito se configurava a partir da transformação do princípio do prazer em princípio de realidade. Sua vida seguia uma dialética, do lado do princípio do prazer estava o senhor-id, do outro um escravo-ego. O senhor é a pura satisfação que não refreia o desejo, simplesmente consome, o escravo refreia seu próprio desejo que está no senhor e instaura o princípio de realidade que adia a satisfação na procura de uma satisfação real e segura.

Com efeito, o reconhecimento será desigual porque, nesse momento da análise, ele ainda não conseguiu atingir o equilíbrio entre a liberdade e necessidade. Já sabe que o princípio do prazer deve se transformar em princípio de realidade e por isso se analisa. Em outras palavras, ele já percebeu que o senhor deve se tornar escravo e é essa inversão que o trabalho analítico permite que possibilitará o domínio sobre o id. Mas ainda não sabe.

Ele já vislumbra um caminho. A entrada nesta luta e a libertação conseguida pelo “eu” no final será também provisória, uma vez que pressupõe necessariamente a conservação do outro. É neste sentido que a libertação não acarreta necessariamente a liberdade, a libertação do escravo permanece sujeita à conservação do senhor que há dentro dele e que lhe fornece a inquietação que o leva em direção ao movimento.

E, no processo, a resistência se instala. A inversão de dominador em dominado torna-se possível porque o trabalho do escravo funciona como processo secundário no regime do princípio de realidade que elabora a experiência e acaba atingindo a necessidade do mundo e da cultura. Mas, ele ainda não está pronto para esse passo.

É importante uma nova mudança de posição para suportar que a permanência do princípio de prazer no princípio de realidade garanta a continuidade da vida, esta luta deverá continuar e será projetada na relação que o “eu” manterá com outros “eus” no meio social, o que propiciará novos conflitos entre o “eu” e o mundo que são, concomitantemente, origem e projeção da própria luta interna.

3 thoughts on “Abençoado por Deus e bonito por natureza

  1. A sua capacidade técnica de expressar em palavras, de forma objetiva e clara, o processo analítico de alguém, é impressionante.
    Por alguns minutos achei que estivesse ouvido você falar atrás do Divã.
    A luta pelo autoconhecimento continua, fortalecida pelo enorme desejo de ver meu desejo realizado. Tudo isso sem culpa e sem “escravização”. Buscando ser escravo apenas do desejo, rumando à liberdade plena! Sua ajuda é fundamental para isso.

    1. Miguel, não existe caminho pronto. O caminho se faz ao caminhar. E no percurso muito encontramos e muito perdemos. Culpa é só uma forma de não seuirmos em frente. Ela está ai para ser resolvida.

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