A diferença que incomoda

A diferença que incomoda

 Está muito difícil viver nos dias de hoje. Não acho que a dificuldade de lidar com diferenças e minorias seja um fato novo. Acho que o novo é a enorme velocidade com que as informações e comentários são divulgados e analisados.

Há poucos dias a polêmica sobre o homossexualismo esteve à tona com o triste comentário de Patrícia Abravanel. O que ela disse, já havíamos ouvido antes. Políticos, artistas, pessoas do nosso meio social, onde quer que a gente ande sempre encontraremos alguém que pensa como ela. Infelizmente.

Sempre tive muitos amigos gays. Homens e mulheres. São os mais divertidos, sérios e fieis amigos. Tenho uma grande amiga que, na adolescência, meu pai chegou a achar que éramos namoradas. Nada aconteceu. Mas, se eu tivesse que escolher uma relação homossexual, seria com ela.

Na atualidade, com a crescente medicalização da vida, a escolha sexual não podia ficar de fora. Se medicam as crianças por serem inquietas, os adultos e idosos por perdas e dores, claro que iriam pretender curar um homossexual. Afinal, tudo que foge à norma e checa nossa posição assusta, incomoda e precisa ser afastado. Não sabemos lidar com a diferença e precisamos acreditar que tudo que nos ameaça é uma doença.

Uma vez ouvi alguém dizer que homossexualismo não é coisa de Deus porque numa relação homossexual não há procriação. Assim sendo, como manter relação sexual na velhice, pós menopausa ou depois de uma histerectomia?

Mas essa polêmica sobre a escolha sexual das pessoas não surgiu ontem. Na verdade, Freud já esteve diante dela. Em 1935, ele respondeu carta de uma mãe preocupada com seu filho gay. A sua resposta à mãe do garoto deixa claro que ele não acreditava que a homossexualidade fosse uma doença. Sua crença era de que toda pessoa nasce bissexual e a orientação sexual é definida mais adiante.

Ele faz referências a vários gays célebres, como Platão, Michelangelo e Leonardo Da Vinci, garantindo à mãe: “É uma grande injustiça perseguir a homossexualidade como crime – e uma crueldade, também. Se você não acredita em mim, leia os livros de Havelock Ellis”. Ellis (1859-1939), médico e psicólogo britânico, estudou a sexualidade e foi co-autor do primeiro livro britânico sobre homossexualidade, lançado em 1897.

A carta de Freud acabou chegando às mãos do sexólogo americano Alfred Kinsey (1984-1956), responsável por um estudo até então inédito sobre comportamentos sexuais masculinos (1948) e femininos (1953), e foi publicada em uma edição do Jornal Americano de Psiquiatria em 1951. A partir daí, trechos dela foram citados em diversos estudos sobre sexualidade.

A carta de Freud, escrita à mão, está exposta atualmente no Museu da Sexologia, em Londres.

A seguir, vou reproduzir na íntegra a carta:

Cara Sra. [apagado],

Vejo pela sua carta que seu filho é homossexual. Estou muito impressionado com o fato de você não mencionar o termo ao fornecer informações sobre ele. Posso perguntar por que você o evita? A homossexualidade não é certamente nenhuma vantagem, mas não é nada do que se envergonhar, nenhum vício, nenhuma degradação; ela não pode ser classificada como uma doença; consideramos ser uma variação da função sexual, produzida por uma certa interrupção do desenvolvimento sexual.

Muitos indivíduos altamente respeitáveis de tempos antigos e modernos eram homossexuais, vários dos maiores homens entre eles. (Platão, Michelangelo, Leonardo da Vinci, etc). É uma grande injustiça perseguir a homossexualidade como crime – e crueldade também. Se você não acredita em mim, leia os livros de Havelock Ellis.

Ao perguntar-me se eu posso ajudar, você quer dizer, suponho, se posso abolir a homossexualidade e instaurar a normalidade da heterossexualidade em seu lugar. A resposta é que de maneira geral não podemos prometer resultado. Em determinados casos conseguimos despertar tendências heterossexuais reprimidas, que estão presentes em todos os homossexuais, mas na maioria dos casos não é mais possível. É uma questão da qualidade e da idade do indivíduo. O resultado do tratamento não pode ser previsto.

O que a análise pode fazer por seu filho é uma questão diferente. Se ele é infeliz, neurótico, dilacerado por conflitos, inibido em sua vida social, a análise pode trazer harmonia, paz de espírito, eficiência, quer ele siga homossexual ou se modifique. Se você se convencer de que ele deve fazer análise comigo – eu não espero que aconteça – ele terá de vir para Viena. Eu não tenho nenhuma intenção de sair daqui. No entanto, não esqueça de me dar a sua resposta.
Atenciosamente seu com os melhores votos,

Freud
P.S. Não achei difícil entender a sua letra. Espero que você não ache entender a minha escrita e o meu inglês uma tarefa mais difícil.”

Depois de ler a carta, se alguém ficou em dúvida se o posicionamento da psicanálise  é válido e se ainda se sente incomodado com a escolha sexual alheia, o melhor é se perguntar porque  a vida do outro lhe diz tanto respeito. E não se assuste se encontrar muito de sua própria escolha sexual nas respostas encontradas.

Armandinho dá uma surra de sabedoria em Malafaia

Imagem encontrada na internet. http://paraalemdocerebro.blogspot.com.br/2015/06/armandinho-responde-as-imbecilidades.html

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