A Repetição nossa de cada dia

A Repetição nossa de cada dia

 

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Todos os seres humanos têm padrões de repetição. Alguns calçam o pé direito sempre antes do esquerdo, ou vice-versa, outros sempre dão topadas nas mesmas quinas dos móveis ou gostam de comer determinados alimentos antes de outros. Até parecem engraçados. Mas não é. Causam sofrimento.

Quando são acontecimentos corriqueiros, não há grande importância. O problema é quando a repetição é destrutiva. São compulsões que levam indivíduos à beira da loucura e destroem vidas – as suas próprias e as de outros.

Na clínica recebemos muitos pacientes que chegam com a queixa de repetirem situações que lhes causam desprazer. Relatam que repetem no casamento, entre pais e filhos ou no trabalho. Também escuto relatos de muitas histórias de pacientes que tiveram parte importante de suas vidas desperdiçadas pela insistência em agir em ciclos negativos.

Algumas pessoas repetem, indefinidamente, atitudes destrutivas. É claro que a maioria das pessoas não percebe o que faz. Prefere acreditar que a insatisfação é apenas fruto de algo externo. E essa negação faz com que ela siga em frente, sempre sofrendo. Pode se manifestar em absolutamente todos os aspectos da vida: no namoro, no casamento, na criação de filhos, na escola, no trabalho. É preciso que haja trabalho psíquico para ver que a repetição é algo do sujeito, um movimento interno de compulsão à repetição e não ação externa.

No casamento, por exemplo, que é um espaço de luta de poder e desejos, é comum o marido ou a esposa deixar o outro controlar, dominar e punir, enquanto o outro simplesmente age de forma que esse controle e essa dominação cresçam ainda mais. Ambos seguem um acordo silencioso, não importando se ele traz culpa ou dor. Também é muito frequente uma pessoa casar várias vezes e, apesar de os parceiros serem absolutamente diferentes, criar situações e problemas idênticos com todos eles. Qualquer um pode perceber que um padrão está sendo repetido, menos ela própria. Outro ponto importante é que em meus pacientes de terapia de casais, costumo encontrar semelhanças entre cônjuges e seus pais. E o paciente se assemelha com quem ele mais teve dificuldades: o pai frio e distante deu origem ao marido insensível. É a representação de uma relação mal resolvida do passado.

É, geralmente, na relação entre pais e filho que se constrói nossa subjetividade. É de traumas, grandes ou pequenos, do começo de nossas vidas que isso tudo nasce. De um sentimento de abandono, nasce a crença de que se aquilo for repetido, as coisas serão transformadas. Tudo é inconsciente, é claro.

Repetimos em todos os setores da vida. No trabalho também. Todos conhecemos alguém que pula de emprego em emprego e está sempre culpando um chefe ou os colegas. Nos novos empregos há sempre problemas semelhantes aos anteriores. Isso é porque o relacionamento interpessoal é um fator muito importante no trabalho – tanto quanto dedicação ou competência. A visão das pessoas no local de trabalho muitas vezes são distorcidas por relações mal resolvidas do passado, da mesma forma que no casamento. Vê-se um chefe como o pai severo ou uma colega como a irmã competitiva. Ai repetimos no trabalho essas relações mal resolvidas. Questiona-se a autoridade do chefe, negligencia-se uma meta, começa-se a chegar a atrasado. Como forma de combater inconscientemente algo do passado que ainda nos atormenta.

As pessoas acabam buscando fórmulas mágicas para resolver essas situações. Evitar essas repetições destrutivas é muito difícil, porque elas estão marcadas em nosso inconsciente desde muito cedo. Uma pessoa pode até perceber sua compulsão em agir daquela maneira e, a partir disso, acreditar que poderá controlar-se da próxima vez. E mais uma vez ela age destrutivamente e crê que na próxima ela evitará e assim por diante. Por isso eu digo que estar ciente de seu padrão de repetições é extremamente importante, eu diria que é o primeiro passo. Mas o caminho para resolver o problema é ir ao encontro da raiz de tudo. Enfrentar esta tristeza. E isso se faz na análise.

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