Tocar o intocável

Tocar o intocável

 

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Chegou no consultório da analista. Era um homem bem-sucedido, ganhava bem e era realizado na vida pessoal. Ele contou que sempre quis ter família e que agora tem. Há diferenças. Ele espírita, ela evangélica. Ela se converteu recentemente. Bonita, boa mãe, a mulher perfeita. E se amavam. Mas estavam brigando muito.

Nem sempre a vida foi assim, ele conta. Foi adolescente rebelde. Viveu o movimento hippie e foi um deles. Músico de vocação, tocava na noite para sobreviver. Muito jovem se apaixonou. Pela música e por uma bela morena. Investiu tudo. Sonhou que seria um astro do rock, que ela seria para sempre sua musa. Escrevia-lhe poesias e recitava pela madrugada afora. Durante o dia, cantava, ouvia os discos no aparelho de som da sala, compunha e sonhava. Sonhava com uma vida ao lado da morena. Os filhos, a música e a realização pessoal.

Do outro lado estava a família dele. O pai preocupado com o futuro do jovem. Observava, mas não dizia nada. Estava disposto a aguardar o momento certo. A avó observava o neto preferido e se deliciava. ele se parecia com seu falecido marido. Talentoso, bonito, bem-educado, estudioso e os olhos… que brilho tinham aqueles olhos!

Os meses passaram. Ele e ela sempre juntos. Um dia ele a espera e ela surge com um olhar diferente. “Precisamos conversar”, ela diz. Uma outra pessoa apareceu para ela. Ela se apaixonou e quer experimentar. Ele, em choque, não fala nada. Ela se afasta e ele fica só observando.

Durante meses, a casa foi só silêncio. Sem música no toca-discos, sem o som do violão e do piano. Não mais rascunhos espalhados pelo chão. O tempo passa, outras mulheres chegam. Os bares com amigos pela madrugada e o pai começa a cobrar. “Tem que ganhar seu próprio dinheiro. Homem não pode viver assim.” A avó se preocupa. “Tem que voltar a ser feliz.” “Eu sou feliz”, ele diz. Mas ela não vê mais o mesmo brilho nos olhos.

Ele estuda. Se torna advogado. Conhece uma boa moça. Se casa. Realiza o desejo de ser pai. São 3 filhos, duas meninas e um menino. A boa moça se torna uma boa mãe, é companheira, boa amante e boa confidente. Ele arrisca uns acordes no violão. No escritório de advogado bem-sucedido um cd de blues alegra a tarde.

A analista questiona seu desejo. Os olhos brilham quando fala dos filhos. Brilham quando falam da música. Mas não brilham quando ele fala da vida que leva. Ele tem medo do olhar da analista. Ela parece ver além dele.

Mas não é verdade. Ela, ao sustentar o olhar dele, só provoca que ele olhe para si mesmo. O olhar que ele teme é o dele mesmo e, talvez, o do pai. A análise avança. Deitado no divã, de costas para a analista, tudo fica mais fácil. Ele escreve um livro, volta a compor. As audiências são um palco. Mas ele deseja outro palco. Em casa, as brigas continuam. A esposa reivindica tempo para a família. Ele prometeu que ia para a igreja com ela.

Ele busca e consegue outro palco. Ele brilha. Tem o talento reconhecido pela família e amigos. A esposa deseja sucesso sempre. O acompanha em tudo e pergunta quando ele terá tempo de ir à igreja. Ele tem os filhos. E a advocacia que paga as contas e o torna um homem honrado perante o pai morto. Mas não para ele. Seu desejo está em outro lugar. Mas precisa sustentar os filhos.

O medo que tem do olhar da analista é grande. “Ela toca o intocável”. Mal sabe ele que é nele que habita o que ele não quer tocar. Ela só aponta o que está lá e ele não consegue ver. Ele se afasta da análise, “já estou bem” ele diz. Tem medo de escutar seu desejo. E volta para sua vida de advogado bem-sucedido com as contas em dia. E nos fins de semana se torna astro dos amigos do peito.

Planejou largar a análise. Percebendo seu movimento, a analista  diz: ” O tempo é seu, a vida e as escolhas também. É você quem decide por onde quer caminhar. E se quer e como quer caminhar.”

As brigas em casa terminam. Ele é marido dedicado e fiel, profissional bem-sucedido, pai realizado. De vez em quando vai à igreja. Dançou a valsa dos 15 anos com a filha mais velha. Pelo bem dos filhos e da boa esposa. E da família. Um homem de bem. Os blues ficaram no rádio do carro. A advocacia paga as contas, a música não.

Nem todos são para a análise. A analista sabe disso e espera que ele encontre seu espaço, embora acredite que ele pudesse ir mais longe que já foi. Mas a escolha tem que ser dele.

 

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