Aids e psicanálise – Uma prevenção ao avesso

Aids e psicanálise – Uma prevenção ao avesso

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Como situar a psicanálise em relação ao conceito de prevenção? Prevenir é dispor com antecipação, preparar, chegar antes de, adiantar-se ou antecipar-se, dispor de maneira que evite um dano ou um mal, dizer ou fazer antes de outrem, realizar antecipadamente, ir ao encontro de (Holanda, 2012).

A prevenção em saúde exige uma ação antecipada para tornar improvável o progresso posterior de uma doença. As ações preventivas são definidas como intervenções orientadas para evitar o surgimento de doenças, reduzindo sua incidência e prevalência.

A noção clássica de prevenção leva em conta as noções de previsão e probabilidade. Entendemos previsão como o que se pode conjecturar; já probabilidade é definida como a possibilidade de um evento acontecer. Deste ponto de vista, a previsão não se enquadra num trabalho com o inconsciente, com o “imprevisível”, com o impossível de conjecturar.

A prática da psicanálise parece ser o próprio limite da prevenção. Há uma noção clássica de prevenção que se ancora na também clássica equação da história natural da doença (ou do processo saúde-doença), que pode ser resumida na interação linear entre a agressão do agente patogênico e a vulnerabilidade do hospedeiro.

Esta relação indica que na equação existe o papel do vetor que representa o conjunto de variáveis (biológicas, ambientais, etc.), que se interpõem entre o agente patógeno e o organismo sadio, estabelecendo um intervalo entre o momento da causa e o da sua consequência, propiciando o tempo da intervenção preventiva .

Há, portanto, uma sequência que é linear e temporal entre a patogenia e a patologia que supõe elos, cujo encadeamento a prevenção desfaz. A “ideologia da prevenção” crê metrizar um Outro suposto fora do sujeito. Deste modo, todo o trabalho analítico de responsabilizar o sujeito pelo seu engano em relação ao Outro fica excluído.

Freud (1926/1980), a seu modo, não se eleva contra uma profilaxia. Por diversas vezes, ele questionou a possibilidade da psicanálise ajudar neste campo. Porém, falava disso remetendo os educadores a fazerem análise (Freud, 1926/1980, p. 290).

A prática analítica ensina que existe um agente subjetivo, e até subversivo, à prevenção. Por mais planejada e calculada que seja a prevenção, existirá sempre um ponto que irá escapar, já que o real, o impossível de aceder e que insiste em se repetir, trará sempre a dimensão de que nenhuma prevenção dará conta integralmente.

Assim, a prevenção surge como um modo de resposta ao real. Tentamos a cada dia nos proteger e nos prevenir das contingências das irrupções do real. Mesmo que os objetivos da psicanálise não sejam preventivos, o homem tenta se prevenir a cada instante do real e isso o sujeito traz em análise, mesmo que a posição do analista não seja a de tranquilizar e nem de consolar .

O analista não recua ante uma demanda que insiste. Ao contrário, orientado por uma ética de um discurso que não se pode ceder, ele acolhe esta faceta da dimensão do real. A atuação do analista em instituições e em políticas públicas de saúde leva-o a responder por uma prática fora do setting analítico. A prevenção entra, neste sentido, como mais uma reflexão a ser realizada pelos analistas que aí se debruçam.

Acredito que a posição de analista é incompatível com a proposta de prevenção, o que não o impede de atuar junto aos sujeitos soropositivos ou não, e profissionais que se dedicam à prevenção contra a AIDS. Tornar a prevenção uma questão, interrogar sobre os ideais sociais, o poder e a tentativa de controle evocada na prevenção, eis uma contribuição da psicanálise!

Questionar a prevenção, seu caráter de “toda poderosa”, que faz uma “caridade moralista” é uma das contribuições da psicanálise.  Deste modo, um analista tem muito que “se deixar fazer”, abrindo um espaço de possibilidade para a escuta das repetições, atuações, e “decepções” instigadas.

O maior impasse da psicanálise em relação à prevenção está na questão do tempo. A antecipação é marcada pela pressa do sujeito e instaura outro tempo para a psicanálise: o tempo do espaço entre a suposição e sua verificação. Neste ponto, é importante trabalhar a noção do tempo e refletir sobre a possibilidade dele não se restringir ao a posteriori. 

Na psicanálise, o tempo é o da irreversibilidade. O tempo que Freud definiu como sendo o do inconsciente é o Nachträglichkeit, o a posteriori. Para Gondar (1995) o modo freudiano de pensar o tempo não aponta para uma noção abstrata. O funcionamento do tempo é intrínseco ao sujeito e às operações que levam à sua produção. Neste sentido, pode-se dizer que o tempo do inconsciente é real e não abstrato, já que o sujeito é capaz de criar um tempo que lhe seja próprio.

Quando Freud afirma que o inconsciente é atemporal, é justamente a concepção abstrata do tempo que ele refuta, pois se o inconsciente implica um tempo, este não deve ser entendido como grandeza e quantificabilidade preexistentes por si mesmas, e, tão pouco, um tempo neutro onde se poderia dar indiferentemente este ou aquele evento.

Há no tempo psicanalítico do a posteriori uma dissimetria entre o antes e o depois. Se, num tempo reversível, essa discriminação não é realizada, a irreversibilidade reconhece um marco diferencial entre o antes e o depois, concebendo-os como desiguais. Como observa a autora, esse marco se encontra, para o inconsciente, na produção de sentido.

A cada instante, produz-se um novo sentido, e esse sentido é irreversível – não porque não possa ser produzido um outro que o modifique, mas porque não há possibilidade de retorno ao instante anterior. Esse sentido só pode ser destituído ou ultrapassado pela criação de um outro, que também se apresentará como diferente com relação aos que o precederam: qualquer produção nova é por si só suficiente para impedir a simetria entre um antes e um depois.

Lacan (1964/1979) une lógica e tempo ao formular a dimensão de pressa. Ele aponta duas escansões que tem o valor de significantes e que verificam a precipitação do sujeito em concluir na pressa, num momento de eclipse em que, percebendo um tempo de atraso de seu raciocínio em relação aos outros, ele tem medo, caso não conclua imediatamente, caso se deixe ultrapassar pelos outros, de não mais ter sua certeza. A certeza do sujeito é impelida por um ato de asserção de certeza antecipada. No só- depois verifica alguma coisa que á atingida antes mesmo de poder ser verificada: é a verificação da antecipação da verdade. (Lacan, 1964/1979, p. 198)

Conclui o autor: “há um hiato irredutível entre a verdade e sua verificação, hiato que se reduz à dimensão temporal da pressa” (Lacan, 1964/1979, p. 198).

Em O estádio do espelho (Lacan, 1964/1979) a antecipação é da ordem do imaginário, realizada pela gestalt de uma ilusão da imagem do corpo fragmentado. Lacan relata: “o estádio do espelho é um drama onde o impulso interno se precipita da insuficiência à antecipação” (1964/1979, p. 98). Mas é no texto Observação sobre o relatório de Daniel Lagache que ele formula que além da antecipação imaginária existe também uma antecipação simbólica (Lacan, 1966/1998, p.656).

A função da pressa no estádio do espelho é decisiva (Lacan, 1964/1979). Quando o sujeito antecipa aquele que designa como eu, há uma relação do sujeito com o Outro através deste tempo: “ele terá querido” . Uma pressa que se constitui neste tempo de adiantamento possível em que o sujeito se precipita em concluir para compensar seu atraso eventual, existindo uma falha entre o que é supostamente visto pelo outro e o que o sujeito afirma na sua suposição .

A psicanálise coloca em questão a palavra do sujeito. Na prevenção, “a contribuição pode estar nesse movimento de dar lugar ao sujeito, à subjetividade e à singularidade do seu sintoma” (2005, p.113). Essa contribuição é dada “ao dialogar com as outras áreas do conhecimento, sem apoiar-se em verdades absolutas e normativas, mas, mantendo sua singularidade dentro de um contexto multiprofissional no campo da prevenção”.

No campo da prevenção à AIDS, a psicanálise pode contribuir com o trabalho nesse tempo da “pressa”, sem que este se torne o tempo de uma adivinhação ou o tempo de uma concordância generalizada. Uma atuação entre a suposição diante do que outro vê e o que a ciência afirma como resposta deste outro.

O psicanalista sabe que os efeitos da palavra incidem profundamente na biologia do corpo vivente. A psicanálise, portanto, poderia contribuir para uma ação preventiva disseminando sua praga: uma admissibilidade do real e uma constatação do furo no Outro .

 

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