Da amizade entre homens e mulheres

Da amizade entre homens e mulheres

Para Giancarlo

Há muito se discute a respeito da relação entre homens e mulheres. Hoje, momento em que a homofobia e a luta pelos direitos individuais se interceptam, a visão de Michel Foucault em entrevista à Guattari fala sobre a amizade nos mostra que, como modo de vida a relação de amizade entre os sujeitos é uma possibilidade que está colocada para além das noções amplamente difundidas das identidades de gênero.

Digo está para além porque rompe exatamente com o vício de praticar relações verticais, ou seja, aquelas em que há uma dominância instituída pelo hegemônico masculino – e seus muitos representantes – e que se perpetua estabelecendo relações de poder. Nessas relações verticais há um que manda e outro que obedece; um que sabe e outro que não sabe; um que manipula e outro que se deixa manipular; um, que geralmente é homem e, outro, que geralmente, é mulher; um que é adulto e outro que é jovem, adolescente ou criança; um que é jovem e, portanto, mais sintonizado com as ferramentas que seu tempo lhe oferece e outro que é velho e, portanto, considerado ultrapassado, obsoleto… quando não… ultrapassado em suas ferramentas!

Abordando o homossexualismo como condição não identitária, Foucault aponta para a  possibilidade desejável de sair dos modos de representação dominante e midiático-institucionais e buscar outras maneiras de viver a vida e o desejo, os quais não necessariamente passam pela prática de atos sexuais. Minha proposta é pensar a entrevista de Foucault e Guattari, sem pensar nas questões de gênero, mas nas relações entre sujeitos desejantes.

Guattari fala de um fluxo de força e energia que atravessa sujeitos desejantes que estejam abertos para relações horizontais, ou seja, nesse caso, aquelas em que está fora de foco e de centro a prática da hierarquia vertical. Relações permeadas por uma “igualdade” que não é somente semelhante, mas que produz diferenciação no extrato e no imaginário social enquanto práticas , atitudes e ações desinstitucionalizantes, ou para usar outra palavra igualmente longa e complicada: desterritorializantes.

Vivemos em territórios imaginários, identitários e instituídos tidos como corretos, certos e inquestionáveis: desejo de absoluto e medo do novo. Nesse mundo  onde o desejo não tem lugar , que as práticas instituídas e os modelos socialmente aceitos são massificantes, esse paradigma apresentado por Foucault e Guattari apresenta uma nova possibilidade de um novo modo de viver que se anuncia como quebra das práticas instituídas nas relações interpessoais. Um modo que possibilita outra inserção social, afetiva e existencial entre as pessoas: desejo de mudança que aciona o medo de perder o conhecido, estável e supostamente seguro.

Entre esses dois medos, o de ser engolfado pelo novo e o de perder a estabilidade segura, produzem-se novas maneiras de viver, amar e gostar da vida e das pessoas sem a ditadura de sexualidade, sem a necessidade de definições que enclausurem o desejo de vida à uma sexualidade presa ao ato sexual.

Nesse ponto de vista, podemos nos perguntar o que tem a amizade haver com sexo, sexualidade?

Podemos dizer que têm tudo haver com amizade. Na medida em que, atravessando sujeitos abertos e desejantes de novos e diferentes modos de existência a amizade permite outras práticas mais horizontais e transversais, marcadamente aquelas que NÃO repetem modelos pré fabricados e automatizados por práticas viciadas e viciantes baseadas em identificações massificadoras.

O modo de vida ao qual se refere Foucault muito pouco ou quase nada, o que dá no mesmo, tem a ver com a prática sexual, o coito, o homoerotismo, embora eles possam estar presentes nas relações de amizade.

A amizade como modo de vida me parece ser uma possibilidade linda de simplesmente ser/estar em relação ao outro, independente do sexo desse outro, mas na dependência da eroticidade desse outro e no que ela, essa eroticidade-poética, mais do que carnal, desperta e afeta em… ambos!

Uma amizade assim constituída permite intimidades, sociabilidades, práticas profissionais, relacionamentos com “papéis sociais” completamente fora da hierarquia dominadora-dominante e institui diálogos (e não mais monólogos familiares e conjugais) desfamiliarizados e tidos como óbvios; abre espaços inéditos de questionamento, discordância e posicionamento em relação às diferenças… que, nesse caso, agora são estimuladas, desejadas e preservadas como um ninho de acolhimento do novo… novo esse que é co-produzido numa rede mutável de intensidades concreto-abstratas em cada encontro.

Essa visão de Foucault, é uma visão do mundo contemporâneo e está ligado não somente à curiosidade, ao descobrimento, ao entendimento, ao aprendizado. É uma possibilidade de transformar à relação entre um sujeito desejante com o Outro, de se construir algo na contramão do controle… vertical, neurótico e instituído. Não é lindo?

 mar-de-gente.

 

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