Sala de aula, vida e trabalho

Sala de aula, vida e trabalho

trabEla acorda querendo voltar a dormir. Mas sabe que não pode. Tem que estar em sala de aula as 8 horas em ponto. No caminho vai pensando: A vida dá voltas. Há muitos anos foi apaixonada pelo professor de matemática, ela aos 13 anos e ele um pastor que resolvia equações complicadas com a maior facilidade. Amor platônico. Admiração. Depois veio a professora de matemática, ela queria ser igual a ela e fazia de tudo para ter seu reconhecimento. Adorava cálculos, equações e geometria. Era a queridinha dos professores de matemática. E se lamentava por que tinha que ter aulas de geografia e biologia. Desperdício de tempo.

Depois, na faculdade foi apaixonada por todos os professores de psicanálise. Devorava livros, fazia análise. Conseguiu todos os estágios que quis. Foi a queridinha dos professores de psicanálise. Tomou bomba nos testes de Detran. Como dava sono aquelas aulas.

Hoje, ela é professora e psicanalista. Indo para a escola, pensa nos alunos. Adultos e adolescentes. São 10 turmas, 8 cursos. Cada turma com um perfil. São técnicos, profissionais liberais e artistas. Cada um com seu jeito. São dez aulas, 40 horas, um mesmo conteúdo. Mas, em cada turma, uma aula, afinal, são pessoas diferentes.

Pela manhã, os jovens. Adolescentes ansiosos pela entrada no mercado de trabalho. À tarde, as mulheres. Mães ou não, mas todas em busca pela independência. Elas tem a necessidade de uma profissão para mudar sua história. E à noite os artistas visando o aprimoramento, os técnicos que buscam se especializar e os operários que esperam que a qualificação possibilite uma chance de melhorar na profissão.

Falar de vida e trabalho. E ela fala, fala e fala. E ela pede que eles falem, falem e falem muito. Melhor dizendo a troca de conhecimentos. Provas, trabalhos e nota? Tudo secundário diante da importância de se fazer a transmissão de conhecimento.

Porque ela aprende com eles. Aprende a fazer pão, aprende a diferença de programador web e web design. Bijuteria bacana tem fecho camarão, foi a descoberta do ano. Aprende que os pincéis de maquiagem e as trinchas do pintor de parede se parecem. Economia solidária é diferente de economia criativa. Principalmente aprende que ser diferente é o que nos permite a complementaridade.

Toda aquela paixão que teve pelos professores, ela sentiu por seus alunos. Ela viu que alguns passaram a ter para com ela a mesma relação que tivera com seus professores. Amor e ódio. Recebeu algumas reclamações de alunos que não gostavam dela. E muitos presentes. As bonecas, as flores, os bolos, as canções. Tudo. Alguns mais arrojados se declaravam. Perdeu a conta das vezes que ouviu um aluno dizer que estava apaixonado. Mas ela entendia. Já estivera assim por um professor. E por Freud. E por Lacan.

A transferência é a repetição da relação vivida com os cuidadores da infância e que, num outro momento, será revivida pelo indivíduo e aqueles que ocuparam o lugar daqueles cuidadores, tendo sido esses os pais ou qualquer pessoa que tenha desempenhado essa função. Os lugares anteriormente ocupados pelas figuras parentais, então ocupados por outros indivíduos também investidos de afeto, serão, em certa medida, substitutos daqueles.

Estando a transferência intimamente ligada aos afetos que permeiam as relações, sejam elas entre médico e paciente, entre parceiros, entre professor e aluno e outros, poderá ser qualificada de positiva ou negativa, segundo seja percebida como amável ou hostil. Isso porque, os afetos nessa nova relação não serão, necessariamente, amorosos e de aceitação, uma vez que a relação primária, da infância, também pode ter sido permeada por afetos rancorosos e de rejeição.

Em se tratando de uma relação em que estão envolvidos professor e aluno, não poderia ser diferente. Manejar a transferência em uma relação professor-aluno não é algo simples, principalmente se se considerar que os afetos ali envolvidos são aqueles que, com certeza, foram investidos outrora na relação cuidador-cuidado ainda na primeira infância. Segundo Freud (1915), “é verdade que o amor consiste em novas adições de antigas características e que ele repete reações infantis. Mas este é o caráter essencial de todo estado amoroso. Não existe estado deste tipo que não reproduza protótipos infantis.”

A resposta às questões colocadas aos partícipes de uma relação transferencial vai depender da subjetividade de cada um. Isso porque cada indivíduo possui uma capacidade própria para responder afetivamente a cada situação. Tais respostas se limitam, muitas vezes, à aceitação ou à rejeição do afeto que lhe é dirigido. Cabe ao professor, aqui especificamente, utilizando-se da transferência, conduzir o aluno a vivenciar uma experiência afetiva calcada na aceitação. Esse tipo de transferência é substitutivo de afetos já experimentados pelo aluno e não é menos real que as suas experiências anteriores.

Ela chega na escola. Tem que interromper os devaneios. Ao entrar na sala, uma aluna dá um bombom. Lá se foi a dieta, outra vez. Um outro aluno pergunta se ela vai na festa da turma. Um outro pergunta se pode cantar para ela uma música que cantou na igreja no dia anterior. E há aqueles que torcem o nariz e dizem “não sei o que vocês viram nela. Não tem me acrescentado nada demais. Que aula chata! “

Faz parte, pensa ela. .Isso se chama diferença e ela preza muito que cada sujeito possa manifestar sua subjetividade. Ela sabe que em cada uma das turmas vai falar sobre o mesmo assunto, mas não poderá se a mesma aula. e começa a aula dizendo: ” Hoje vamos falar sobre o amor. Amor próprio, pelo outro é também amor pelo trabalho”.

E essa professora ama, ama muito seu trabalho e seus alunos. Outros mais, outros menos. Mas isso será outra história.

3 thoughts on “Sala de aula, vida e trabalho

    1. Obrigada, amiga. Demorei a responder, né? Transformar o consultório numa clínica dá um trabalhão! Quanto ao artigo… é isso que quis dizer no texto. A transferência é uma vicissitude inconsciente. E consequência do desejo.

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