O Sujeito desejante e o queijo gorgonzola

O Sujeito desejante e o queijo gorgonzola

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Algum tempo atrás publiquei no blog o texto de Maitê Proença. O artigo em que ela se compara ao queijo gorgonzola deu o que falar. Críticas no e-mail e pessoalmente. Cheguei a ouvir que era um texto em que uma mulher de 50 anos se oferecia para ser “comida”. Será que uma pessoa inteligente como ela ao dizer “Estou me tornando uma iguaria. Com vinho tinto sou deliciosa. Aos 50 sou uma mulher para paladares sofisticados” ou “Não sou para qualquer um, nem para qualquer um dou bola, agora tenho status, sou um queijo Gorgonzola” ela está falando  da vontade de dar uma trepada e ser comida por alguém? Simplório e limitado o comentário. 

Muito cedo aprendi a separar sexo e sexualidade. A psicanálise só veio me dar a certeza disso. Em psicanálise a sexualidade está divorciada da sua ligação por demais estreita com os órgãos genitais, sendo considerada como uma função corpórea mais abrangente, tendo o prazer como a sua meta e só secundariamente vindo a servir às finalidades de reprodução.

Freud diz que prazer vai além do prazer genital. Lacan completa falando de sujeito do desejo. É o desejo que move o aparelho psíquico, que faz sonhar, dormir e acordar. É o limite entre a vida e a morte. E mais: é o que move o sujeito.

Compreendo que um leigo não tenha o alcance da profundidade dos conceitos. Mas não entendo como uma pessoa pode ler um artigo e resumir o que a autora diz em “ela quer uma trepada e se você postou isso é por que é igual”.

Me identifico com a autora por achar que uma pessoa, homem ou mulher pode se tornar deliciosamente interessante aos olhos do outro. Como o queijo gorgonzola que quanto mais velho, mais interessante fica. Chego a imaginar a cena, duas pessoas, independente do sexo, sentadas tomando uma taça de vinho enquanto saboreiam um bom queijo ou massa. E conversam. Conversam muito. Conversam sobre a vida, sobre si e sobre o mundo. A sexualidade passa por ai. O ato sexual não.

Concordo com Maitê que a maturidade é para paladares sofisticados. Não é qualquer um que consegue enxergar outras maneiras de viver a vida e o desejo, os quais não necessariamente passam pela prática de atos sexuais.

Identifico-me com o artigo de Maitê na medida em que, acredito em sujeitos abertos e desejantes de novos e diferentes modos de existência. Sujeitos que acreditam que as relações permitem outras práticas que pouco ou quase nada tem a ver com a prática sexual.

Quando leio “Não sou para qualquer um, nem para qualquer um dou bola, agora tenho status, sou um queijo Gorgonzola” acredito que ela quer dizer que hoje se valoriza mais, que não precisa estar com qualquer pessoa, seja na intimidade sexual, na vida amorosa, pessoal ou profissional.

Acho que se ver como um queijo gorgonzola significa se ver como um sujeito desejante. Alguém especial, que vale a pena, que é valorizada por si mesma. Uma boa maneira de dizer que deseja estar com um outro que a veja com valor e que, independente do sexo desse outro, espera que ele também seja um sujeito desejante.

Relações subjetivas, assim constituídas, permitem intimidades, sociabilidades, práticas profissionais, relacionamentos com “papéis sociais” completamente fora da concepção vazia e machista da mulher que quer ser “comida” e abre espaços inéditos de questionamento, discordância e posicionamento em relação às diferenças… que, nesse caso, agora são estimuladas, desejadas e preservadas como um ninho de acolhimento do novo… novo esse que é co-produzido numa rede mutável de intensidades concreto-abstratas em cada encontro.

Mas, infelizmente, é mais fácil ser raso e resumir tudo que uma mulher diz à vontade de ser “comida”. Pessoas assim, não sabem o que é ser um queijo gorgonzola. Se acham corretos, afinal são uma espécie de linguiça mista. Dessas feitas em fundo de quintal. Preenchidos com preconceitos e valores rasos e desestruturados.  E não querem mudar. Uma pena. Perdem um queijo gorgonzola. E não entendem que é por isso que deixam aos poucos de ser interessantes e desejados pelo outro.

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