A culpa não é da minha mãe, nem minha

A culpa não é da minha mãe, nem minha

Já faz um tempo que não escrevo. Precisei dele. Precisei do tempo e do silêncio. Sempre gostei do silêncio e de estar sozinha. Acredito que a solidão é um vazio que acreditamos preencher com a presença do outro. Já estar sozinha, para mim, significa estar comigo mesma, no meu tempo e do meu jeito. É não precisar me dividir naquele momento com os outros. È cuidar de mim.

Lembro da minha infância, de criar a expressão “solidão de casa cheia”. Era uma sensação de não pertencimento em alguns grupos. O tempo passou e, algumas vezes, sinto o mesmo. Ainda olho em volta e não vejo algo que me ligue a alguns lugares ou pessoas. Hoje entendo que essa solidão de casa cheia sinalizava uma diferença. A marca de uma subjetividade que vai contra o comum, o socialmente correto e contra o que o outro pensa.

Durante muito tempo acreditei estar excluída do mundo por pensar assim. Mas, aos poucos, fui percebendo que estar naquele mundo era estar meio fora mesmo. Porque só pertencemos ao mundo quando escutamos o nosso desejo. E desejar é ir, muitas vezes, na contramão da expectativa do outro. E, na maioria das vezes, contra nossa própria expectativa de ideal.

Fiz muitas mudanças na minha vida este ano. Resolvi cortar as mentiras socialmente aceitas. Costumamos dizer, “não posso porque tenho visita” ou “estou doente”, quando na verdade  não queremos fazer algo ou estar em algum lugar. Passei a dizer não, sabendo que o outro vai se chatear. Passei a dizer sim, por perceber que era importante para alguém importante para mim. Passei a assumir meus erros. E isso foi um grande avanço! Só eu sei como é difícil assumir que não faço só coisas certas. Aprendi a pedir desculpas. E todas essas mudanças me fizeram muito bem.

Mas de todas as mudanças, a mais importante foi aprender a me desculpar pelas falhas e por erros que cometo. Durante muito tempo ouvi as pessoas dizerem que eu era egoísta por fazer só o que queria. O que elas não sabem é o quanto me doí fazer escolhas pensando em mim. Dói porque me obriga a dizer não para o outro e isso pode colocar em risco o afeto que ele sente por mim. Afinal, como todo mundo, quero ser amada. E desejada.

Quando entrei na faculdade de psicologia trazia uma ideia socialmente difundida que a culpa de nossas repetições e sofrimento é de nossa mãe. Foi ela que não teve competência para nos educar e impedir os traumas. Quando iniciei a análise, pela primeira vez, fui obrigada a me defrontar com minha responsabilidade. Tive que perceber que as atitudes e decisões que tomava eram escolhas minhas e que responsabilizar minha criação e a genética era apenas uma forma neurótica de não assumir as responsabilidades por minha vida. Minha mãe não teve nada com isso. Na verdade, as mães e os pais são sujeitos desejantes  e incompletos que têm que ter respostas e saídas para tudo quando se tornam pais, mesmo quando não tem  o que ocorre com muita frequência.

Quando passei a assumir tais responsabilidades, me senti mais aliviada. Bem comigo mesma. Aí iniciou um outro problema. As pessoas que não queriam tomar para si a responsabilidade de suas escolhas a jogavam para mim, quando seus caminhos cruzavam com o meu. Passei a lidar com outro problema. A culpa. Nessa época parecia que eu vivia em um ciclo que não tinha saída. Me achava responsável pelo desemprego, subemprego, desavenças, mal humor ou “mal amor” de todos que eu gostava. Por muito tempo acreditei que deveria abrir mão do meu desejo em prol do outro. Um outro amado. O Outro. Com um enorme e amedrontador “o” maiúsculo.

Santo Agostinho diz que a culpa vem quando cedemos ao desejo. Ou seja, nos sentimos culpados por fazer o que queremos em detrimento ao desejo do Outro. Quando não pensamos no bem do próximo, principalmente da família e pessoas próximas. Mas ele estava errado. Precisamos, sim, respeitar o outro, aceitar que ele não pensa como nós, prestar atenção no que diz, pois podemos aprender com ele. Mas não dá para acatar o que ele diz. Não se nosso desejo apontar para outro lado.

Foi na análise lacaniana que percebi que subverter a lógica agostiniana era o melhor. Eu sou daquelas que precisam ceder ao desejo. Investir na realização dos meus propósitos, assumir os riscos e consequências das minhas escolhas tem sido a melhor saída. Lógico que assim, consegui que muitas pessoas se afastassem de mim, mas outras se aproximaram. E sinceramente, todas as aproximações atuais, mesmo as virtuais, estão valendo mais a pena que aquelas que se foram quando decidi deixar de ser objeto da neurose alheia. E já foram tarde.

E a culpa não é da minha mãe. Nem minha. Se há culpa é de quem não se analisa e prefere impedir que o outro viva para não ter que se haver com suas dificuldades e limitações.

livremente

 

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