Entre a vida e a morte

Entre a vida e a morte

 

 

 

vida

Desde criança me preocupo com a morte. Sempre me instigou ver que as pessoas precisavam chegar bem perto dela para decidirem viver. Lembro-me de, ainda criança, ver as pessoas com câncer ou outra doença grave fazerem planos e tomarem decisões que podiam ter sido tomadas há muito tempo.

Lembro da angústia que sentia quando via meus pais refazendo planos e adiando projetos. Como me sentia culpada. Depois entendi que eles precisavam disso. Realização de desejo é muito complexo para o neurótico.

Acho que isso tudo me marcou. A necessidade de ir até o fundo de mim e descobrir o que eu queria. Arriscar. A relação com o dinheiro. Mais tarde, já na faculdade de engenharia, tudo ficou mais intenso e mais confuso. Enquanto meus colegas eram atormentados pelos cálculos e geometrias, as perguntas sobre a morte me acompanhavam.

Aliás, acho que o problema não era a morte, mas a vida. Foi aí que descobri a psicanálise. E arrisquei de novo. Mudei de curso. Não me tornar engenheira foi, sem dúvida, mudar o curso da minha vida. Deixar de pensar na morte do meu pai e pensar na minha vida. Deixar a vida me levar? Nunca. Sempre fui eu quem a levei. Como quis.

Meu primeiro projeto de pesquisa buscou entender porque as pessoas com doenças terminais precisavam adoecer para se decidirem a viver. Daí para trabalhar no cti foi um pulo. O curioso é que quando me casei e decidi engravidar, abandonei a psicologia hospitalar. Acho que a morte não cabia na minha vida naquele momento.

A maternidade trouxe outra visão da vida e da morte. Meu lema sempre foi “Eu quero, vou buscar e assumo os riscos”. Fui, fiz, arrisquei, assumi as feridas e as tratei. Ficaram as cicatrizes. As fotos, as músicas e a memória. Ser mãe me tornou mais comedida. Por certo tempo. O amadurecimento dos filhos me liberou para assumir outras posições.

Dar aulas para o curso técnico e profissionalizante trouxe novamente o problema da morte. De outra maneira, a morte estava ali representada no desemprego, na dependência financeira e na vida difícil de muitos deles. Um deles me confidenciou que tinha respondido um processo criminal. O crime foi grave, mas a culpa e o remorso eram maiores que a pena que havia cumprido. Ele estava em uma prisão maior, porque era ele quem se sentenciava. Outro, muito talentoso, havia deixado a carreira artística para sustentar a mãe e os irmãos mais novos com um emprego respeitável. Quantos atores, cantores, fotógrafos, bailarinos, escritores e empreendedores encontrei quando dava aulas no curso de computação. Quantas mulheres, tentando resgatar sua dignidade, se formaram no curso de nutrição, administração e me convidaram para comemorar com elas.

A morte não precisa ser a morte do corpo. Para cada uma dessas pessoas o que estava morrendo era o sonho e a aposta na vida. O desejo escondido no meio da angústia. E sem sonhar não nos movimentamos. Quando nos perdemos do nosso desejo, nos perdemos da vida. E ai o que resta é a morte. A morte em vida. A pior delas na minha opinião.

Nos últimos tempos tenho me sentido novamente animada. Efusiva, diz uma amiga. Apesar das perdas, sinto que a vida pulsa. O fim do projeto das aulas para os cursos técnicos, o desemprego de alguns pacientes que abalaram o movimento do consultório, as crises pessoais, familiares e profissionais. Tudo deixando suas marcas e preocupações. Mas nada que impeça de sentir-me viva.

Acho que entendi o que Freud diz sobre a felicidade. Ser feliz não é se sentir completo e sem problemas. Mas, é se perceber consciente das escolhas que faz, que uma perda traz um ganho, basta olharmos direito. O caminho mais fácil é culpar Deus por ter nos posto no mundo e nos dado a família que temos. É mais fácil se lamentar por não ter família rica, por ter tido filhos cedo e, por isso, não ter estudado ou viajado o mundo. Culpar o outro é mais fácil que assumir suas atitudes. O dinheiro é curto, não porque seu pai não é rico, mas porque você não sabe gerir sua vida profissional e financeira. Muitas pessoas estudam depois de ter filhos, isso não é impedimento. Somos nós quem enxergamos os movimentos da vida como impedimentos e não como  dificuldades que precisam ser superadas.

Acho que é por isso que estou andando por ai esfuziante. Descobri que posso escolher entre viver ou morrer. Era o que Freud queria dizer quando escreveu “se queres preparar-te para a vida, prepara-te para a morte.” Entender que um dia tudo pode acabar me ajudou a não perder tempo culpando o outro.

 

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