O lazer e o lúdico na constituição do sujeito

O lazer e o lúdico na constituição do sujeito

brincadeira

O direito ao tempo regulamentado de lazer foi uma conquista de todos, no Brasil e no mundo. Refletida pela limitação da jornada de trabalho e pelos fins de semana, férias e feriados remunerados, o direito ao lazer foi garantido na declaração de direitos humanos e posto na constituição federal como condicionante de saúde.

O lazer é um fenômeno que pressupõe a busca pelo prazer e representa uma importante dimensão da vida humana juntamente com o trabalho.1 No entanto, Werneck2 reconhece que nem sempre este tempo de lazer é vivido de forma gratificante e qualitativa. Neste sentido, Carvalho3 acredita que o lazer atual da sociedade está distante de se constituir numa possibilidade de liberação da capacidade criadora e inventiva do homem.

Muitas vezes, vemos as práticas de lazer incluídas na roda viva das compulsões subjetivas e das produções alienantes de certa parcela da mídia. Mas, apesar dessa tendência freqüente em nossa sociedade, o lazer pode ser um momento de produção de cultura através da vivência lúdica de diferentes conteúdos mobilizada pelo desejo e permeada pelos sentidos de liberdade, autonomia, criatividade e prazer, coletivamente construídos, influenciados e limitados por aspectos sociais, políticos, culturais e econômicos. 4

E entendendo que o lazer é espaço e tempo de expressão, de realização, de usufruto e produção de cultura e não se restringe ao que é fabricado pela mídia e pelas várias formas de poder5, podemos inferir que a prática do lazer pode ser uma construção subjetiva.

Aproximamos a prática do lazer ao brincar das crianças. Ambas atividades passam pelo particular e pela invenção. Para a psicanálise o brincar em si é algo muito sério, como ensinou Freud que considerou o brincar como um fazer e que se trata de uma atividade fundamental na estruturação de todo sujeito, sua entrada para o simbólico, mundo da linguagem6.

Freud constatou a importância do brincar na observação de seu neto de pouco mais de um ano que jogava o carretel afastando-o e depois buscando–o para si, num jogo de aproximar e afastar. Esta brincadeira constitui o primeiro embate do sujeito humano com a perda de seu objeto de amor – mãe. Representa o instante crucial da estruturação inicial da criança enquanto sujeito e eu se da na dialética de presença e ausência do objeto, o carretel.

É pelo brincar e pelo lúdico que todo sujeito elabora as situações penosas e se inscreve, pela linguagem, no mundo da cultura, constituindo o limite entre realidade e fantasia. E é a prática do lazer, uma das atividades propícias de se presentificar a repetição desse brincar de todos nós.

 

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