Do meu bem ao meus bens – Análise do filme A Guerra dos Roses

Do meu bem ao meus bens – Análise do filme A Guerra dos Roses

Tratando do difícil tema da separação entre casais, o filme A guerra dos Roses é considerado uma comédia de humor negro. O filme relata a história de um casal de classe que cresceu com o esforço de ambos, que buscaram a formação de uma família, segurança afetiva e material. Tudo parecia transcorrer como na maioria dos relacionamentos sólidos e antigos, com algum desgaste. Até o momento em que se rompe a parceria amorosa e numa série de atuações, de ambos os lados, entram em um jogo de agressividade descontrolada, chegando ao final trágico da morte de ambos, a agressividade extrema se manifestando pela violência.
O filme retrata a tragédia do humano no que tange ao tema da transformação do amor e do respeito em agressividade e violência, que eclode explosivamente a um momento da vida do casal.O jovem casal Oliver e Barbara, se encontra em um evento no qual disputam uma pequena estátua japonesa e desta primeira aproximação se origina a relação do casal que terminará em casamento. Esta disputa inicial aponta a trajetória desse relação marcada pela competição, numa rivalidade narcísica do outro com o seu parceiro, desde o seu princípio. Casados, o casal tem um casal de filhos, Josh e Carolyn, e trabalha duro para alcançar realização material. Oliver tem uma carreira bem sucedida, Barbara é uma garçonete, cuida da casa e das crianças que são mimadas e mal-educadas.
O ressentimento acumulado, manifesta-se pela primeira vez, no jantar com os sócios de Oliver aos quais ele quer impressionar, ocasião em que Barbara é muitas vezes deselegantemente e intencionalmente interrompida por Oliver. Esse ato contínuo, parece disparar sua agressividade, ela passa a implicar com riso do marido, o mal estar parece ser a mola propulsora da agressividade que virá depois. O despertar desta raiva que parece irracional e incontrolável, é o ponto que marca definitivamente a denegação de sua agressividade, por lhe ser tão incompreensível.
O tempo passa, o casal tem ascensão financeira, compra e decora uma mansão. Os filhos cresceram e Barbara abre seu próprio negócio. Tudo parece ir muito bem, não fosse à grande e constante irritação que lhe causa o marido e que vai gradativamente aumentando e se manifesta em constante demonstração de agressividade dirigida ao marido. Oliver por outro lado, parece alienado de sua situação afetiva no relacionamento do casal. Porém, o descaso que demonstra em relação à esposa e ao casamento é um modo bastante expressivo de sua agressividade.
É muito significativa a cena em que Oliver com um contrato na sua mão que Barbara lhe pedira para analisar, displicentemente mata com ele uma mosca. A esse descaso, ela responde raivosamente ligando todos os aparelhos da cozinha ao mesmo tempo, o que nesse momento manifesta mais claramente a sua agressividade contida. Nesta mesma noite começam as manifestações físicas da agressividade entre o casal, que chega a lutar corporalmente na cama, num claro rompimento da latência da agressividade.
Após um suposto fatal ataque cardíaco em que Oliver é deixado à sua própria sorte no hospital, e o sentimento de Barbara de alívio com esta suposta morte, ficar denotadamente claro, o casal decide separar-se. Começa a luta do casal pela posse da casa e dos bens, como pano de fundo de uma disputa de velhos rivais narcísicos, reatualizada e reiniciada desde o ponto inaugural do primeiro encontro.

As cenas do filme são manifestações de contínua violência de um contra o outro. Violência produzida pelo não dito, a impossibilidade do se fazer dizer, aparecerá em sua forma moral, emocional e física. Convidados a participar da emoção, os espectadores Dada a densidade do filme, o espectador funciona como um terceiro que vê de fora e com muito desconforto uma revelação da extrema violência entre parceiros, entremeada por um aumento de potência mortífera, por não poder ser contida por nenhuma simbolização mediadora e apaziguadora dessa relação, de cada um com sua própria agressividade.
A palavra não-dita que se esparrama em atos destrutivos até a consumação final, que traz a morte de ambos como único ato que funciona como ponto de basta dessa destruição emocional tornada física.O filme retrata muito da realidade que encontramos na mediação, nos consultórios de terapeutas de casal, como revela Lidia Rosemberg em seu artigo. A autora afirma que “O casamento só acaba quando o ressentimento é mais forte que a esperança de ser feliz”. Isso apareceu no filme de forma crescente. As renúncias, dedicação que não foi reconhecida pelo parceiro, a luta por um lugar de poder no casamento e os sentimentos de descaso, tudo não sendo falado, que se avolumaram e tornaram a relação baseada em mágoas e ressentimentos. O momento que a agressividade manifesta foi deflagrada, parece ter sido o ponto em que os sujeitos percebem que não há mais esperança em ser feliz.

O advogado do casal em certo momento afirma que “Nos conflitos relacionais familiares não há vencedores, somente diferentes níveis de perda.” Em outro ponto, ele diz que “Divórcio civilizado é uma contradição em si.” As falas são importantes pois são reflexão que condensam exatamente o que o filme ilustra. Um casal que ao se desfazer precisa destruir o outro, no sentido literal da palavra, sem se dar conta do grau de destruição que provoca em si mesmo. A perda e o acúmulo de situações agressivas parecem ser insuportáveis demais para serem elaboradas. Assim, eles passam ao ato. E no filme o advogado contribui para que o conflito continue.

Há, hoje, na cultura ocidental, marcada historicamente pelo capitalismo, pelo patriarcado e pelo machismo, uma duplicidade de prioridades. Ao mesmo tempo que a individualidade é importante e recomendada, a conjugabilidade também o é. Tradicionalmente, o casamento mantinha a individualidade do homem, mas não a da mulher. Assim como a priorização do campo conjugal era ensinado às mulheres e cobrado após o casamento.

Se, tradicionalmente, o amor romântico foi o arranjo sustentou casamentos, na contemporaneidade isso não se sustenta mais. Foi isso que o filme A guerra dos Roses tão bem explicitou. Quando as expectativas não são atendidas e o parceiro não consegue abrir mão dela, quando a frustração não é simbolizada e, sim, alimentada, os ressentimentos e mágoas se acumulam e a parceria amorosa se desfaz. Um ou os dois parceiros podem se sentir rejeitados e acreditar que a relação lhe trouxe prejuízos. Quando isso ocorre o processo de separação é mais delicado e pautado pela agressividade.

Outra forma de amor surge na contemporaneidade. O “amor confluente” é mais real que o amor romântico, porque não se pauta pelas identificações projetivas e fantasias de completude. Presume igualdade na relação nas trocas afetivas e no envolvimento emocional. O amor confluente introduz a ars erótica no cerne do relacionamento conjugal e transforma a realização do prazer sexual recíproco em um elemento-chave na manutenção ou dissolução do relacionamento. Desenvolve-se como um ideal em uma sociedade onde quase todos têm a oportunidade de se tornarem sexualmente realizados. Ao contrário do amor romântico, o amor confluente não é necessariamente monogâmico nem heterossexual. Mas também não se sustenta quando aparece a falha do outro, a partir do ponto que depende da disposição para o ato sexual como elemento-chave na manutenção ou dissolução do relacionamento.

Numa sociedade marcada pelo patriarcado, o casamento formal, heterossexual com fins de constituição da família, continua sendo uma referência e um valor importante, mas convive com outras formas relacionamento conjugal. Mesmo com toda essa pluralidade, vemos que quando o desejo de se separar parte da mulher, é difícil para um homem lidar com isso. A decisão é vista como rejeição afetiva e parece ser uma ferida narcísica para o homem. Há nesse ponto de vista uma interseção importante entre a constituição emocional, social e cultural, concluem os autores. Muitas vezes, o homem parte para a violência, como forma de lidar com a perda e os afetos envolvidos. O patriarcado deixou uma inscrição estrutural no homem moderno que ainda vive e sofre suas consequências. O sentimento de rejeição, por ser ferida narcísica precisa ser reparado. E o sujeito não conseguindo pela via simbólica passa ao ato e a violência surge.

O filme entendido à luz dos textos sugeridos, nos mostra que não se pode falar em culpa numa separação. Há a responsabilidade de cada um, a forma como estruturaram a relação, como lidaram com as expectativas e demandas depositadas. O filme mostra que ninguém se casa querendo se separar, mas que as bases dos problemas que se desenvolvem no decorrer do tempo estão lá desde o começo.

Culturalmente e estruturalmente a mulher aprendeu a lidar com a falta. Na relação amorosa ela tende a insistir, porque ” a mulher percebe a relação como sendo de borracha, maleável, que pode ser esticada ou encolhida”, diz Lidia Rosemberg. Já para o homem, em geral, é rígida e “sua ruptura pode ser irreparável”, diz ela. faz com que a mulher lide melhor com as crises e dificuldades.

O filme entendido à luz dos textos sugeridos, nos mostra que não se pode falar em culpa numa separação. Há a responsabilidade de cada um, a forma como estruturaram a relação, como lidaram com as expectativas e demandas depositadas. O filme mostra que ninguém se casa querendo se separar, mas que as bases dos problemas que se desenvolvem no decorrer do tempo estão lá desde o começo.

Enquanto mediadores precisamos buscar construir recursos para o distanciamento, para que não haja um envolvimento pessoal por parte do mediador, visto que mediar é um processo de relação dialógica.

A proposta do processo dialógico é levar os envolvidos na relação, por meio de perguntas, a uma reflexão. Uma forma de humanizarmos a relação, é possibilitar igualmente às pessoas perguntas que as farão refletir e se ouvirem. O foco dessa abordagem está no processo e não no resultado. O que é emergente na história dos Roses é a urgência da simbolização dos afetos para que haja uma retificação subjetiva que restaure o diálogo, o que não foi propiciado pelo advogado que contribuiu ainda mais para o acirramento da disputa, ao descobrir na lei prerrogativas para favorecer um dos envolvidos no conflito.

No filme A Guerra dos Roses houve um abandono ao humano por parte do advogado, resultando numa preocupação única com os bens a serem disputados. Houve uma valorização na disputa, em privilegiar uma das partes apenas e daí emergiu a falta de diálogo como causa e toda uma complexidade de emoções: raiva; ódio; ressentimento; e egoísmo.

O mediador deve ir na contramão do trabalho feito pelo advogado no filme. É importante que o mediador explore o início da relação, quando eles disputaram a estatueta, explorar o inicio da agressividade, sua relação com as frustrações e expectativas. Implicar cada parte envolvida no conflito que está vivendo e como perpetuar o conflito pode trazer consequências na vida de cada um. É importante desbastar as mágoas e ressentimentos para entender se os ressentimentos e mágoas suplantaram o envolvimento entre eles. Caso seja confirmado que os ressentimentos são maiores, direcionar o trabalho no sentido de responsabilizar cada um na parte que lhe cabe na problemática e na solução mais saudável para as partes.

Dessa forma, as perguntas reflexivas abririam caminhos para uma possibilidade de diálogo, de se reposicionar e enxergar a história segundo outro ângulo. Nesse sentido, o mediador exerceria a função de facilitador do diálogo, aquele que possibilita a conversa e a redefinição do conflito, a partir dos próprios envolvidos no processo.

O filme leva à conclusão que se a maneira como casal procurou resolver o problema foi o que constituiu o problema, o direcionamento dado pelo advogado o agravou e impossibilitou uma mediação que pudesse gerar, a partir delas mesmas, situações alternativas que lhes permitissem sair do ciclo vicioso. Para que a transformação de uma relação ocorra é necessário que o mediador partir do levantamento das histórias dos personagens, a fim de que pudessem pensar e reavaliar o passado e o presente.

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