Notas sobre o “transtorno paranóide de personalidade”

Notas sobre o “transtorno paranóide de personalidade”

paranoia

Na modernidade, encontramos pessoas desconfiadas e inseguras. Apesar de toda a violência, golpes e criminalidade que estamos vivenciando ao nosso redor, ainda é importante discernir entre as atitudes cautelosas diante da realidade, das características que apontam um adoecimento do sujeito. Vários casos clínicos que acompanhei de perto, me fizeram buscar estudos e informações para entender as atitudes  em sujeitos que, psicóticos ou neuróticos, se colocam no mujndo de modo excessivamente desconfiado,  com certezas duvidosas ao olhar dos outros. Os artigos psiquiátricos denominam  de Transtorno da Personalidade Paranóide o conjunto de atitudes como essas. Independentemente da estrutura do sujeito, essas atitudes podem ser encontradas em sujeitos neuróticos e psicóticos.

A característica essencial do Transtorno da Personalidade Paranóide é um padrão invasivo de desconfiança e suspeita quanto aos outros, de modo que os seus motivos são interpretados como malévolos. Este padrão tem início no começo da idade adulta e está presente numa variedade de contextos.

Os indivíduos com este transtorno desconfiam que as outras pessoas os exploram, prejudicam ou enganam, ainda que não exista qualquer evidência que apoie esta ideia. As suspeitas baseiam-se em poucas ou nenhumas evidências. Pensam que os outros conspiram contra eles e que podem atacá-los subitamente, a qualquer momento e sem qualquer razão. Estes indivíduos costumam acreditar que foram profunda e irreversivelmente prejudicados por outra(s) pessoa(s), mesmo que para tal não existam evidências objetivas.

Eles preocupam-se com dúvidas  infundadas quanto à lealdade e confiabilidade dos seus amigos ou colegas, cujas ações são minuciosamente examinadas em busca de evidências de intenções hostis. Qualquer desvio percebido na confiabilidade ou lealdade serve para apoiar as suas suposições básicas. Eles sentem-se tão perplexos quando um amigo ou colega lhes demonstra lealdade que não conseguem confiar ou acreditar. Quando enfrentam dificuldades, esperam ser atacados ou ignorados por amigos e colegas.

Eles recusam ter confiança ou intimidade com outras pessoas, pelo medo de que as informações que compartilham sejam usadas contra eles. Podem recusar-se, inclusivamente, a responder a perguntas pessoais, afirmando que as informações “não são da conta de ninguém”.

Veem significados ocultos, humilhantes e ameaçadores em comentários ou observações benignas. Por exemplo, um indivíduo  pode interpretar um engano genuíno cometido por um operário de caixa como uma tentativa deliberada de engana–lo no troco, ou pode interpretar uma observação bem-humorada e casual feita por um colega de trabalho como um sério ataque ao seu caráter. Elogios frequentemente são mal interpretados (por ex., um cumprimento por uma nova aquisição é interpretado como uma crítica ao seu egoísmo; um elogio por uma conquista é interpretado como uma tentativa de forçá-lo a um desempenho maior e melhor). Eles podem interpretar uma oferta de auxílio como uma crítica por não estarem a fazer o suficiente por conta própria.

Eles guardam rancores persistentes e resistem em perdoar os insultos, ofensas ou deslizes dos quais pensam ter sido vítimas. Uma vez que estão constantemente vigilantes quanto às intenções nocivas dos outros, eles acham, muito frequentemente, que o seu caráter ou reputação foram atacados ou que, de alguma forma, foram menosprezados. O seu contra-ataque é rápido e reagem com raiva aos insultos percebidos.

Os sujeitos podem ser patologicamente ciumentos, suspeitando, frequentemente, da fidelidade de seu cônjuge ou parceiro sexual, sem qualquer tipo de fundamento. Eles podem juntar “evidências” triviais e circunstanciais para apoiarem as suas crenças ciumentas. Desejam manter um completo controle de relacionamentos íntimos para evitar traições, podendo constantemente questionar o paradeiro, as ações, intenções e fidelidade do cônjuge ou parceiro.

Em geral, são pessoas de difícil convivência, e com frequência enfrentam problemas com relacionamentos íntimos. As suas desconfianças e excessiva hostilidade podem ser expressas em discussões agressivas, queixas recorrentes ou afastamento silencioso e visivelmente hostil. Como são hiper vigilantes para possíveis ameaças, eles podem comportar-se de maneira reservada, velada ou desviante e parecer “frios” e sem sentimentos de ternura. Embora possam parecer objetivas, racionais e não emocionais, estas pessoas exibem, mais frequentemente, uma indiferença afetiva, com predomínio de expressões hostis, obstinadas e sarcásticas. A sua natureza combativa e desconfiada pode provocar uma resposta hostil dos outros, o que, então, serve para confirmar as suas expectativas originais.

Uma vez que os indivíduos com Transtorno da Personalidade Paranóide não confiam nos outros, têm uma necessidade excessiva de autossuficiência e um forte sentido de autonomia. Precisam também de ter um alto grau de controle sobre as pessoas à sua volta.  Estes indivíduos frequentemente são rígidos, críticos em relação aos outros e incapazes de colaborar, embora tenham grande dificuldade de aceitar críticas a eles mesmos. Podem culpar os outros pelas suas dificuldades.

Os indivíduos com este transtorno tentam confirmar as suas noções negativas pré concebidas envolvendo pessoas ou situações que encontram, atribuindo motivações malévolas aos outros, quando, na verdade, não passam de projeções dos seus próprios temores. Eles podem apresentar fantasias grandiosas e irrealistas fracamente encobertas, em geral estão atentos a temas de poder e hierarquia e tendem a desenvolver estereótipos negativos dos outros, particularmente de grupos populacionais distintos.

Atraídos por formulações simplistas do mundo, frequentemente evitam situações ambíguas. Estes indivíduos podem ser conhecidos como “fanáticos” e formar “cultos” ou grupos estreitamente fechados com outros que compartilham o seu sistema de crenças paranóides.

Particularmente em resposta ao stress, os indivíduos com este transtorno podem vivenciar episódios psicóticos muito breves (durando de minutos a horas). Em alguns casos, o Transtorno da Personalidade Paranóide pode aparecer como antecedente prémórbido do Transtorno Delirante ou da Esquizofrenia. Os indivíduos com este transtorno podem desenvolver um Transtorno Depressivo Maior e estar em risco aumentado para Agorafobia e Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Frequentemente ocorrem Abuso ou Dependência de álcool ou de outra substância.

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