Ela e ele

Ela e ele

Durante muito tempo ela tentou se adaptar. Casada e com filhas pequenas. Fingiu estar sossegada. Fingiu tão bem que nem ela desconfiou que não estava realmente feliz. Mas o tempo diz tudo e, um dia, ela mudou. Mudou de casa, de corte de cabelo e de profissão. Ela não gosta de rotinas. Mudança é o que a atrai. Já sabia disso, mas tentou se adaptar. Adaptar ao mundo que ela acreditava que a protegeria do desamparo. Mas ela descobriu que esse mundo não existe. “Ninguém dá amparo a ninguém” – conclusão que ela chega depois de anos deitada no divã. Então ela foi embora. Levou as filhas, os discos e os livros. E arrumou a casa nova. E redescobriu o prazer de cozinhar. E ouvia os discos sozinha no quarto. E organizava os livros na estante. Ela cantarolava feliz da vida. Liberdade se tornou o tema discutido com as amigas entre uma xícara de chá ou taças de vinho. O tempo passou. E ela ficou tranquila. Voltou a dançar, a rir e a dormir. A cama de casal estava perfeita para ela. Mexia e remexia. Nem se lembrava que um dia só a metade da cama lhe coube.

Foi ai que ele apareceu. Com um sorriso largo e olhos profundos. Numa noite, entre taças de vinho e uma massa, ele falava e ela ouvia. Ela falava e ele parecia ouvir. Ele falava e ela pensava: ele vai partir meu coração. Ele quer tomar café. Ela resiste e não o convida para subir. Ela chega em casa e passa a noite em claro. Dois banhos frios na madrugada. Inquieta. O dia amanhece e ela entra em contato. Agradece a noite. Eles emendam uma conversa. Ele a convida para sair novamente. Ela diz que as filhas chegam naquele dia. Ele diz que não quer que ela vá para voltar no mesmo dia. Quer que ela fique. Combinam para o dia seguinte. A voz repete insistentemente: ele vai partir seu coração. Ela ignora a voz. É uma mulher que não recua diante do desconhecido.

O dia chega. Ela prepara os queijos. Na hora marcada ele chega. Ela se perfumou, esperou aquele momento. Na casa dele, entre vinhos, frutas e queijos, tudo acontece. Ela gosta. Ele parece gostar também. Mas o corpo fala. E o dela grita. O dia amanhece. Entre lençóis ela descobre limites novos do corpo. E gosta. Gosta muito. O encaixe é perfeito. Ele é educado. Ela escuta a voz dizendo: ele vai partir seu coração. Ela vai embora. Um incomodo permanece. O corpo sangra e dói.

No dia seguinte, não se falam. Mas ela escreve e ele lê. Ela tem inveja de alguém. Ele passa a noite em claro, é o que ele diz. Ela acorda, vai para a academia. Olha o celular. Ele quer falar com ela. Ela escuta. Ele não quer mais. Está confuso. Ela não se surpreende. A voz já havia dito. Ela continua viva. Não sabe dele. Ela tem amigos. Sai com eles. Os homens olham para ela. Ela se sente bonita. Os dias passam. Ela sai com a amiga. No caminho, ele quer falar com ela. Eles conversam. Ela resiste. Ele a dispensou e ela se lembra bem. A vida tem que seguir. Ela decide. Ela ainda quer vê-lo. Se falam. Se comem. O tempo passa. Mas eles ainda não se encontraram.

Se veem de novo. A mão dele no corpo dela. Ela está diferente. A voz não fala nada. Ela já sabe. Fez uma escolha. O corpo quer. Os dois querem. As cabeças a mil. Não dá certo. O encaixe não foi perfeito. A comida queimou. Tentam conversar. As falas são desconexas. Não se entendem. Ela troca o nome dele. Ele se surpreende e não gosta. Ele vira para o lado e dorme. Ela olha para o teto e vê o dia nascer. Ele acorda. Tentam de novo. De novo não dá. Tomam café. Conversam. Quando ele fala ela se encanta. Quase acredita que está apaixonada. Ela se lembra da voz. A voz dele, naquele dia, na porta da academia dizendo que não a queria mais. Eles tentam de novo. Parece que vai. E foi. Mas não foi perfeito. Ela vai embora. A vida segue.

Eles se falam depois. Não é mais a mesma coisa. Os corpos se encaixavam e não se encaixam mais. As palavras desencontradas. A proposta está clara. Ela não a compreende bem. Ela sente vontade de falar com ele. Para ele tanto faz? Ela não tem certeza. Eles se falam. Ele fala de uma ex. Ela não gosta. Ela se lembra que não usaram camisinha. Então tem outra pessoa em cena? Ela se preocupa. Não sabe explicar para ele. Ele acha que ela quer compromisso. Ela diz que não. Ele acha que ela vai e vem. Ele diz que ela precisa se decidir. A proposta era clara. Ela tem que se afastar dele, é o que ele diz. Ela argumenta. Ele a chama de arrogante. Ele não consegue compreendê-la. Ela não quer entendê-lo. Ela está cansada. E sabe o que quer. Não era o compromisso. Era ele. Do jeito que fosse. Com vai e vem. Sem amarras. Ele não quer. Ela não insiste. A vida segue.

Ela não se aperta. É dona de sua história. Cai e levanta. Na vida dela, ele teve uma função. Ela espera ter significado algo também. Eles se afastaram. Ele lê o que ela escreve. Acha que é para ele. Algumas coisas são. Ou foram. Ela já não sabe. O telefone toca. O dela e o dele. São outras vozes. Outros nomes. Uma outra história? Talvez.

Ele queria que fossem felizes. Cada um na sua. E foram? Não sei. Felicidade é coisa que depende de cada um. Mas o tempo passou e a vida seguiu generosa. Para os dois.

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