Sobre a morte e o viver

Sobre a morte e o viver

Se queres aguentar a vida, prepara-te para a morte.” – Sigmund Freud

A morte, curiosidade da infância, se tornou inimiga na juventude. Comecei a temê-la ao tomar consciência de que ela poderia chegar a qualquer instante. A preocupação não era se eu iria para o céu, mas o fato de interromper meus sonhos e perder minha vida. Medo de perder quem amo. Aos poucos, fui sendo levada a ver a morte sobre outros ângulos. Foi quando decidi trabalhar em cti como psicóloga. Lidava com a morte e o sofrimento do outro o tempo todo. Descobri que ela nos ajuda a avaliar a vida à luz da finitude humana e a dar valor a cada segundo que vivemos neste mundo. Segundo Clarice Lispector, “um instante é bastante para a vida inteira”. Diante da morte, a vida ganha força.

Recentemente, fui ao velório e sepultamento de um jovem de 20 anos, universitário, trabalhador, religioso e apaixonado pela vida. Sua trajetória foi interrompida com um acidente de moto. Durante a cerimônia religiosa, um líder de sua comunidade repetiu inúmeras vezes a expressão: “temos uma hora marcada”. Há uma expressão latina: ‘memento mori’, cuja tradução literal é “lembre-se da morte”. Podemos também traduzi-la por: “lembre-se de que você é mortal”. É isso mesmo: mais cedo ou mais tarde, sem o anúncio dos sinos das catedrais, nossa hora chegará. E ela vem para todos: crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. A morte nos iguala: não há diferenças de sexo, idade, classe social, raça, condição moral ou opção religiosa. Ela é equânime.

Freud, no texto “Nossa atitude perante a morte (1915)”, afirma “que no fundo ninguém acredita na própria morte (…) no inconsciente cada um de nós está convencido de sua imortalidade”. No final desse texto, Freud recomenda: “Se queres suportar (aguentar) a vida, prepara-te para a morte.

No final da década de 1980, assisti “Asas do Desejo”, do diretor Wim Wenders, premiado em Cannes, e considerado um dos mais inquietantes filmes sobre a condição humana. Mais tarde, foi adaptado por Hollywood em “Cidade dos Anjos”. Retrata a relação entre os anjos, seres eternos e imortais, e os humanos, seres finitos e mortais. As cenas em que os anjos aparecem estão em preto e branco para simbolizar um mundo sem emoções e regado pelo tédio de uma eternidade opaca. São seres desencarnados, assexuados e, de acordo com o crítico de cinema, Marcelo Vinícius, “condenados a testemunhar com inveja a encarnação alheia”. Um deles, Damiel, ao se apaixonar por uma mulher, opta pela finitude. Demonstra não suportar mais o peso de uma “eternidade sem cor”. Ele quer vivenciar as emoções que são próprias aos humanos.

Mário Quintana dizia sobre o nosso fim: “…a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”. É quando nos desobrigamos de normas e regras, das exigências do cotidiano, das ocupações e preocupações próprias do viver, entre elas, o medo de morrer. Mas, é também a ausência total do que faz pulsar nossas veias, que alimenta a nossa alma e renova o nosso espírito: amar, desejar, querer, não querer, sentir medo, frio, tocar e se deixar tocar, pagar contas, acordar, recordar, bater papo com os amigos, esperançar e tantos outros sentimentos ou ações que movem e dão beleza à nossa vida. Era isso que o anjo Damiel desejava. Simplesmente, ser mortal. O poema “Minha Morte Nasceu”, Mário Quintana, fala da morte como algo que nos acompanha desde o nascimento: “E dançamos de roda ao luar amigo na pequenina rua em que vivi”.

Quando a morte é encarada como realidade da qual não se pode fugir, ela se torna sábia companheira e nos lembra que cada instante da vida pode ter o sabor de uma vida inteira. A partir desse momento “Memento mori” que entendemos o que é viver. Afinal de contas, como diz Freud: “Suportar a vida continua a ser o primeiro dever dos vivos”.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: