Volúvel e volátil – A paixão pelo efêmero e os jogos de sedução em tempos de Tinder

Volúvel e volátil – A paixão pelo efêmero e os jogos de sedução em tempos de Tinder

Conectados, mas sem vínculos. A primeira geração da era digital vive o amor de forma imediatista, autocentrada e sem padrão. Com os aplicativos, a paquera virou um game, que acelera os encontros e diminui a dor da rejeição. O romantismo acabou. Virem-se.

A rapidez tecnológica virou imediatismo. O individualismo geral acelerou o cronograma de se apaixonar e desapaixonar e fez brotar um medo do compromisso. A geolocalização substituiu o acaso. Os parceiros são tão descartáveis quanto qualquer outro item da sociedade de consumo. Fidelidade só ao plano 4G.

“O romantismo ficou datado historicamente. Hoje, o amor está atravessado pelo marketing e o sucesso pessoal”, resume a psicanalista Gislaine Dominicis, especializada em jovens e adolescentes. “É uma cultura narcisista que está nas relações de trabalho e nas relações amorosas. Os jovens trocam de profissão, emprego e de parceiro do mesmo jeito. No celular, eles escolhem a namorada e a pizza.”

Os aplicativos são catálogos humanos. Uma coleção de dorsos, rostos, nomes e gostos. O peito não é mais lugar das dores, pesadas como medalhas. Hoje, pega bem se ele for decorado com músculos e tatuagens. É um desfile de gente com camiseta de time, erguendo cervejas, posando com animais de estimação, beijando golfinho ou abraçando o tigre sedado.

Há apps específicos para todos os nichos: gays, evangélicos, idosos, obesos, nerds, deficientes físicos, soropositivos, casados e até funcionários públicos. Se as amizades foram parar no Facebook, as relações familiares no WhatsApp e os contatos profissionais no LinkedIn, qual é o problema dos romances migrarem para os aplicativos também? Afinal, as redes sociais não são o lugar ideal para os laços frouxos que unem as pessoas atualmente?

Nos aplicativos, você pode achar o amor da sua vida ou umas chicotadas no traseiro. Depende das leis de oferta e demanda. Mas a velocidade e o excesso de estímulos transformam de uma hora para a outra a excitação em repulsa. “Os aplicativos têm um prazo de validade. Você logo enjoa”, diz Kátia. Nesse cenário, qual é o melhor caso de sucesso: o cara que teve o mês mais sexual da vida ao se alistar no aplicativo ou quem encontrou um namorado firme?

Você começa acariciando a superfície lisa do celular para depois lidar com as curvas do corpo humano. O touchscreen é uma preliminar do desabotoar de calças. Mas engana-se quem imagina um paraíso carnal para a geração do milênio, X, Y, Z, “nativos digitais” e afins. Tipos humanos como o predador, o enrustido e a fogosa tiram vantagem das inovações, mas a era digital trouxe mais uma mudança comportamental do que uma revolução sexual.

Uma pesquisa da Universidade Estadual de San Diego (EUA), com 33 mil pessoas, mostrou que os jovens hoje fazem menos sexo que seus pais no mesmo período da vida. A tal geração millennial tem em média oito parceiros até os 30 anos de idade. Já a turma do “baby boom” tinha 12 parceiros naqueles idos dos anos 1960 e 1970. Ou seja, a pílula anticoncepcional fez mais que a internet e suas infinitas distrações.

Paixão pelo efêmero

Um dos efeitos psicológicos dos aplicativos amorosos é a diminuição do papel da rejeição. Na vida analógica, essa dor rendia raivas, rimas e um aprendizado que durava meses escutando músicas de corno ou anos na terapia. Na era dos smartphones, você nem percebe o desprezo no meio de tantos “matches”. E quando se é desdenhado basta partir para a próxima foto, deslizando o dedo na tela.

Outro mecanismo nesses casos é proporcionado pela cultura narcisista de nossos dias: o ego infla como um air bag para se proteger da realidade. “Hoje há um superinvestimento na imagem. Eu sou o produto e o vendedor ao mesmo tempo. E não há conflito de personalidade entre o eu real e a persona virtual”, afirma a psicanalista Gislaine Dominicis. Os contemporâneos compraram tanto a ideia da autopromoção que não enxergam a fraude por trás dos disfarces do Photoshop. Seu lugar no mundo é definido por ações de marketing (pessoal) e técnicas de venda (de si mesmo).

E as pessoas assumiram também características de seus aparelhos. Querem mobilidade e convergência em seus romances wireless. “Há conexão, mas não há vínculo”, define Gislaine. “As relações estão horizontais e sem padrão. As pessoas só estão juntas enquanto existe o amor entre elas. Nossa época está menos moral, mas mais ética. Somos mais éticos diante do nosso desejo. Há menos disciplina, mas há mais responsabilidade”, argumenta o também psicanalista Jorge Forbes.

Não se segue as ordens ou se busca aprovação do papa, do pai repressor, da bancada evangélica ou do governo federal (a não ser a recomendação de usar camisinha). Hoje a relação é legitimada pela própria rede de informações, afinal, consegue-se a ficha completa do candidato (a) pela internet. A quantidade de amigos em comum e de preferências artísticas determinam se o aspirante pode ser validado. Por outro lado, dirão os saudosistas, o excesso de informação acaba com a surpresa e o encantamento que tanto cercou o amor anteriormente.

Um dos efeitos psicológicos dos aplicativos amorosos é a diminuição do papel da rejeição. Na vida analógica, essa dor rendia raivas, rimas e um aprendizado que durava meses escutando músicas de corno ou anos na terapia. Na era dos smartphones, você nem percebe o desprezo no meio de tantos “matches”. E quando se é desdenhado basta partir para a próxima foto, deslizando o dedo na tela.

Outro mecanismo nesses casos é proporcionado pela cultura narcisista de nossos dias: o ego infla como um air bag para se proteger da realidade. “Hoje há um superinvestimento na imagem. Eu sou o produto e o vendedor ao mesmo tempo. E não há conflito de personalidade entre o eu real e a persona virtual”, afirma a psicanalista Gislaine Dominicis. Os contemporâneos compraram tanto a ideia da autopromoção que não enxergam a fraude por trás dos disfarces do Photoshop. Seu lugar no mundo é definido por ações de marketing (pessoal) e técnicas de venda (de si mesmo).

E as pessoas assumiram também características de seus aparelhos. Querem mobilidade e convergência em seus romances wireless. “Há conexão, mas não há vínculo”, define Gislaine. “As relações estão horizontais e sem padrão. As pessoas só estão juntas enquanto existe o amor entre elas. Nossa época está menos moral, mas mais ética. Somos mais éticos diante do nosso desejo. Há menos disciplina, mas há mais responsabilidade”, argumenta o também psicanalista Jorge Forbes.

Não se segue as ordens ou se busca aprovação do papa, do pai repressor, da bancada evangélica ou do governo federal (a não ser a recomendação de usar camisinha). Hoje a relação é legitimada pela própria rede de informações, afinal, consegue-se a ficha completa do candidato (a) pela internet. A quantidade de amigos em comum e de preferências artísticas determinam se o aspirante pode ser validado. Por outro lado, dirão os saudosistas, o excesso de informação acaba com a surpresa e o encantamento que tanto cercou o amor anteriormente.

Jogo da sedução

Nos Estados Unidos, em 1999 só 2% dos usuários buscavam parceiros na web. Hoje, está em torno de 60%. Os primeiros filhos de casais formados com ajuda da internet já chegaram na idade para praticar paquera online. As crianças geradas nas salas de chat cresceram e agora estão se aventurando nos aplicativos.

O sucesso dos aplicativos provocou uma gameficação da vida sentimental. A interface do Tinder, por exemplo, imita a dos jogos para celular. Você descarta pretendentes como ajuda os Angry Birds: é só dar um swipe, é só deslizar o dedo. Quando rola um “match” é como um ponto no score. Falar no chat com a pessoa que atraiu você é como conseguir novos poderes. Conseguir o número do celular é passar para nova fase.

O conceito de “play” é tão evidente que o Tinder disponibiliza dois botões quando há uma combinação: um é “mandar uma mensagem” outro é “continuar jogando”. As soluções múltiplas, o ambiente controlado, os mecanismos de recompensa e a desimportância dos erros são características que os aplicativos de relacionamento compartilham com os joguinhos.

É o jogo da sedução domesticado e confortável. Ele queima etapas da aproximação e torna as pessoas mais otimistas em relação a sua vida sentimental. É um single`s bar ou uma agência de matrimônio que entra no seu bolso. Só depende do seu desejo.

“Eu estou à procura de um amor. Enquanto não aparecer, vão rolando uns casinhos”, relata a consultora de vendas Maryca Medeiros, 28, sobre sua experiência com os aplicativos. Ela é mais uma evidência que o ser humano, como animal social, necessita de afeto e atenção dos outros. É o sonho de encontrar uma pessoa legal, sentir o arrebatamento do amor e fazer planos de futuro. A caçada amorosa continua, só suas regras mudaram.

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