Mulheres que amam demais

Mulheres que amam demais

Dependência é uma palavra que incomoda e assusta. Sempre nos remete à  viciados em drogas pesadas e à vidas devastadas. Pode parecer pesado, mas quero provocar uma reflexão sobre como algumas pessoas que repetem relações devastadoras, vivem situações de desorganização emocional que as colocam como dependentes do objeto que ‘amam’  e que, vez por outras, funcionam na prática como uma droga, se é que na vida real não são realmente uma ‘droga de relacionamento’. No consultório, principalmente, mulheres parecem que estão viciadas na relação, e como qualquer tipo de vicio, precisam aceitar a gravidade do seu estado antes de poder se recompor.

Em análise, uma dessas  mulheres que já foi obcecada por um homem alcoólatra, percebeu que a raiz dessa obsessão é, não o amor, mas o medo. Ela estava cheia de medo. Medo de estar só, de ser inapta para ser amada e indigna disso, medo de ser ignorada, abandonada ou destruída. Ela também se nomeia como uma  mulher que acredita que ao dar amor na esperança desesperada de receber de volta daquele por quem está obcecada será a solução de seus problemas, medos e inseguranças. Em vez disso, os medos e obsessões aumentam até que dar amor para receber de volta se torna uma necessidade que domina toda a sua vida. E como a estratégia não traz resultado, mais e mais ela tenta ‘amar’ ainda mais. Ela ‘ama  demais’.

O que ela percebe é que ao fim de alguns anos vem colecionando relacionamentos com alcoólicos e viciados em drogas. No seu processo de análise ela constata que os seus parceiros provinham quase sempre de famílias com problemas em que haviam sentido um stress e um sofrimento acima do normal. Ao tentar entender os seus parceiros dependentes, ela, que se denomina ‘co-alcoólica’ estava ‘inconscientemente’ recriando e  revivendo aspectos significantes da sua história.

As suas histórias pessoais revelavam a necessidade de superioridade e sofrimento  ao pôr-se no papel de ‘salvadora’;  e ajudaram-na a entender a profundidade da sua dependência de um homem que era viciado e dependente de álcool e drogas. É óbvio que ambos os sujeitos necessitam de tratamento; pois, estão os dois a morrer devido à sua dependência, ele dos efeitos do abuso de álcool e produtos químicos, ela da sua forma adoecida de se relacionar e viver.

Foi a partir das esposas e namoradas de homens viciados que comecei a me perguntar se é possível entender que as mulheres que ‘amam demais’ vivem uma relação devastadora no sentido psicanalítico do termo. Estas mulheres co-alcoólicas  parecem apresentar no seu padrão de relacionamento com os homens algo de seu romance familiar e do seu modo de subjetivação. A escolha de objeto amoroso têm algo a dizer  mais sobre o sujeito e sobre sua predileção por relacionamentos fadados ao fracasso, pela forma como elas perpetuam os seus problemas. E,  mais importante do que isso, sobre a forma como elas podem caminhar no seu processo de análise.

Não tenciono insinuar que as mulheres são as únicas a ‘amar demais’ nem a viver relacionamentos tóxicos. Nem mesmo quero afirmar que se restringem à relacionamentos heterossexuais. Há homens que praticam essa obsessão com certos relacionamentos com o mesmo fervor do que qualquer mulher. Tão pouco quero reduzir a gravidade de uma relação tóxica nem responsabilizar um dos parceiros. A escolha de objeto amoroso e a compulsão à repetição são da ordem do inconsciente e seguem a sua lógica.

Há neste artigo, uma intenção clara de se fazer entender por pessoas leigas, que desconhecem o jargão e, talvez, até a clínica da psicanálise. O objetivo aqui é levar às mulheres que trabalhei nos grupos de cidadania, nos abrigos, delegacias e na vida uma reflexão sobre sua posição diante de si, da escolha amorosa e dos relacionamentos. Não há uma lista de passos a dar nem uma receita de fórmulas para mudar.

O que há é uma proposta clara e objetiva: que tal refletir sobre suas escolhas? Para isso é necessário muito empenho pessoal. Não há atalhos.  Se analisar é um processo de desatar nós, é um permanente desafio. Nem sempre tranquilo, mas sempre muito importante.

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