Confissões de um alcoolista*

Confissões de um alcoolista*


Para a analista ele conta que acordou na rua depois de noites de bebedeira e descontrole.   Família? Não tinha até que ela chegou. Foi uma garota que ele conheceu cuja vida não girava em torno de bebidas. No primeiro encontro ele viu que ela era diferente. Ele pediu vodka e ela suco.

Casaram e tiveram um filho. Ela se dedicava à família e ele perdia o controle da bebida. Perdeu o emprego. As noites de amor se tornaram madrugadas de brigas. Um dia acordou com o filho chorando. Sua família vivia em estado de ansiedade. Eles faziam parte da tragédia que era sua vida. Seu filho crescia tenso. Quando ele saia, a criança entrava em pânico.

Algumas noites estava no bar; em outras, no sofá com eles. Tinha ressaca quatro dias por semana e sóbrio nos outros três. Ele sabia que queria a família bem, mas não desistia das bebidas.

Até foi diagnosticado com depressão. O médico foi claro: tinha que parar de beber.
Prometeu a si que seria a despedida. Nessa noite abandonou o copo. Bebeu no gargalo. Acordou no dia seguinte perdido, confuso e com chamadas do filho no celular. Uma mensagem dizia: fomos embora.

Cinco anos se passaram. Hoje ele se deita no divã e conta que há muito não bebe. Está limpo e espera que dure para sempre. A mudança de vida não foi fácil. Teve recaídas. Evitava bares e amigos. Voltou a conviver com o filho. A esposa refez a vida sem ele.

As manchas escuras em volta dos olhos desapareceram e o filho se sentia confiante. Ele ganhou uma segunda chance. Está sóbrio e pode escolher se quer ter um relacionamento ou não.

Sabe que o sacrifício valeu à pena, porque, mesmo que não possa tomar uma taça de champanhe na formatura do filho, pelo menos sabe que há muita chance de estar vivo para presenciar os momentos importantes da sua vida.

Obs: texto fictício baseado na escuta das fantasias e desejos de moradores de rua do bairro Carlos Prates.

*Artigo que escrevi para o Jornal do Padre Eustáquio

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