Uma verdade sobre a mentira*

Uma verdade sobre a mentira*


A mentira aflige tanto pais de crianças que mentem quanto adultos que  se surpreendem com as mentiras do outro.

As crianças mentem, às vezes, porque desejam dar aos pais a versão que, acham, estes gostariam de ouvir. Os pais precisam se questionar se estão impondo aos filhos os seus desejos e se interessando pouco pelos desejos deles.

Deixar de brincar é o que agrava a intensidade da mentira. Se, ao invés de mentir, a criança  brinca, pode obter realização de seus desejos. Hoje, a adolescência é uma extensão da infância, sem as possibilidades de satisfação desta, na brincadeira.

No adulto, a mentira se dá dentro do mesmo processo: tentar ser o que se acha que gratifica o outro.
Há mentiras que indicam crises subjetivas e de auto-estima. Alguns mentem por se sentirem  humilhados. A mentira é uma defesa. Na infância e adolescência, a mentira funciona como proteção de pais invasivos ou repressores.
A mentira do adulto aparece com o objetivo, às vezes compulsivo, de lucro ou prazer. Há duas formas de mentira: a que prejudica alguém e a mentira social. A mentira compulsiva é uma doença.
O mentiroso compulsivo, só deixa de mentir quando aceita sua própria singularidade e falhas.

O problema mais grave na mentira é social. A sociedade mantém convenções que são incompatíveis com a condição humana. O sujeito, às vezes, mente porque não suporta o conflito  entre desejo e a frustração imposta pela realidade.

Em resumo: o sujeito mente para tornar a realidade menos frustrante. Portanto, na mentira compulsiva o tratamento se faz importante para que ele entenda a dificuldade de sustentar seu desejo diante do outro e provavelmente, diante de si.

*Artigo que escrevi para o Jornal do Padre Eustáquio

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